
"Certa manhä, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se metamorfoseado num inseto monstruoso." (A Metamorfose, Kafka)
"Estou deitado sobre a mesa. Um bebê robusto, corado; choramingando, agitando as mãozinhas - uma criança normal, da cintura para cima. Da cintura para baixo, sou um cavalo [...] Sou - meu pai nem sabe da existência desta entidade - um centauro." (O Centauro no Jardim, Moacyr Scliar)"Caro Gregor,
Você não me conhece, mas, creia, eu te conheço. Li sobre você num dos muitos livros que papai me comprara em Porto Alegre quando eu (ainda com patas) me encontrava recluso no meu quarto. Compartilho do seu incômodo. Nada fácil ser uma criatura diferente e, por isso mesmo, indesejada.
Você, caro Gregor, nasceu gente por inteiro, mas, um dia, acordou bicho por inteiro - um inseto (qual seria ele? As páginas não me revelaram) completo. Talvez, talvez eu tenha tido mais sorte. Nasci meio-homem, meio-cavalo. Um centauro, por assim dizer.
Hoje, estou livre das patas e do pêlo de alazão. Um médico marroquino as extirpou numa cirurgia complicada que, felizmente (sim?), teve sucesso. Mas não pense que foi fácil tornar-me uma pessoa, digamos, plena. Não pela dificuldade de recuperação (por isso também, um pouco), mas especialmente pela vontade que eu às vezes tenho de sair por aí no galope. Que falta me faz um pasto aberto nos momentos de estresse!
Contudo, escrevi não para falar de mim, e sim de você; aliás, para te dar um conselho. Procura o médico marroquino, Gregor! Talvez ele possa te ajudar. Não garanto que ele vá encontrar uma solução de imediato, já que teu caso parece ser mais grave - afinal, eu era só metade bicho, enquanto você, bem... -, contudo, penso que tu deves arriscar, rapaz. Tenta encontrar sua identidade por baixo desse exoesqueleto quitinoso!
Eu sei, eu sei. Você vai me dizer que, na condição em que está, não vai conseguir sequer passar pela porta de casa. E eu te pergunto: não tens asas? Pois voa!
Não se preocupe quanto aos gastos com a viagem ou com o tratamento. Minha situação financeira atual me permite fazer concessões a amigos, especialmente se eles forem tão peculiares quanto eu, um dia, fui. Tomei a liberdade de providenciar tudo com o médico, que o receberá de braços abertos em sua clínica. Apesar disso, adianto que escapar dessa sua casinha claustrofóbica está por sua conta - por falar nisso, várias vezes me imaginei vivendo em teu quarto e a cena que me vinha a mente era de patas saindo pela janelas, pela porta, um horror...
(Os mais céticos devem estar bradando: "Mas estás louco! Não vistes que o inseto morreu, com a maçã empodrecida nas costas?". E eu lhes respondo: "Tolos, na literatura tudo é possível! Pode um homem nascer centauro e um inseto ter sido homem. Qual a razão de eu não poder ajudar Gregor Samsa a se tornar uma pessoa novamente?". Com isso eles não contavam!)
Não vou dizer que todos os seus problemas se encerrerão com a cirurgia, isso seria mentir. De vez em quando, confesso, tenho recaídas nas quais gostaria voltar a ser centauro e galopar, galopar, galopar... Contudo, creio que agora está tudo bem. Tudo bem.
Economizo minhas palavras para que seus miolos de ártropode pensem um pouco. De todo modo, você já sabe para qual endereço responder. E reafirmo: reaja, amigo! Seria demais pedir um inseto com vigor de cavalo?
Cordialmente,
Guedali"
-x-
OBS1: Não, não tive um ataque de esquizofrenia. É que após ler A Metamorfose de Kafka, pareceu-me coincidência a leitura de O Centauro no Jardim, de Moacyr Scliar. Duas obras que, no fundo, tratam do mesmo aspecto: nossa luta incessante por descobrir o que somos ou o que queremos ser. Guedali - centauro - e Gregor - homem transformado em inseto - são dois personagens tão peculiares que, para mim, foi impossível não imaginar uma conexão entre dois
OBS2: Moacyr Scliar, eu te amo por esse livro.