quinta-feira, 14 de maio de 2009

O vice-presidente e a lição da semana

José de Alencar: sorriso e sabedoria
Eu nunca havia reparado em José Alencar, nosso vice-presidente. Sequer havia me interessado por quem é ele ou qual a sua história pessoal. Entretanto, no último dia 13, suas palavras me surpreenderam.

Há 12 anos José de Alencar luta contra o câncer. Em Janeiro deste ano, o vice-presidente passou por uma cirurgia complexa, cuja duração foi de 18 horas, para a retirada de um tumor maligno no intestino. Neste momento, o vice-presidente não demonstrou nenhum sinal de fraqueza; ele encarou com coragem a doença. Na última quarta-feira, com a mesma serenidade demonstrada anteriormente, José de Alencar comentou o resultado de novos exames que comprovam existência de mais 18 focos do câncer em seu abdômen.

“A vida tem obstáculos. A gente tem que ter serenidade. Lutar sem desespero. Vou lutar para enfrentar a situação da melhor maneira possível. A minha vida, como a de todos, está nas mãos de Deus. Não adianta pensar diferente. A morte é um fenômeno da vida. Todos que nascem vão morrer um dia. Eu também. Quando, eu não sei”, disse José de Alencar, com serenidade estampada no rosto.

“Lutar sem desespero”. Essa frase marcou minha memória. Quantas vezes em nosso cotidiano nós nos entregamos a batalhas irracionais e nos desesperamos loucamente por banalidades? Desesperamo-nos pelo trabalho que deve ser entregue amanhã e ainda não está pronto, pelo atraso em determinado evento, pelo erro de alguém... O vice-presidente, por sua vez, luta pela vida (literalmente!), e não se desespera.

Menos pelo seu cargo, mais pela sua sabedoria. É assim que lembrarei de José de Alencar.
Belo exemplo!

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A mulher da cocada

Algumas cocadas nada parecidas com as vendidas pela mulher.


Há sete anos moro na mesma rua. Invariavelmente, por volta das onze da manhã, eu ouço a mulher dizer "Olha a cocada!", com sua voz grave que já não pode mais ser dissociada do calor da hora. Durante esses últimos anos, inúmeras coisas já aconteceram a mim e às pessoas ao meu redor. Nossas vidas já se transformaram incontáveis vezes e, a cada dia, novos sonhos surgem em nossas mentes, fazendo-nos traçar planos cada vez mais mirabolantes para nossos futuros.

Paralelamente ao nosso crescimento pessoal e profissional, ao ritmo frenético com que nossos dias passam, a mulher da cocada permanece com sua rotina indefectível de trabalho braçal sob o Sol. Provavelmente, a senhora robusta da qual eu falo nunca se questinou o por quê de sua vida inteira ter se baseado na venda das sobremesas de coco. Provavelmente, ela realiza sua atividade diária de forma mecânica e o "Olha a cocada!" sai de suas cordas vocais enquanto ela pensa na necessidade de trocar um ferrolho na janela da frente de sua casa.

Intriga-me, no entanto, a diferença monstruosa de perspectiva que se retrata na mente de pessoas de classes socias diferentes no Brasil e no mundo. Impossível imaginar os sonhos ou o conceito de felicidade que a mulher da cocada nutre. A realização pessoal de alguém cujas necessidades vitais mal são atendidas é, certamente, um fator que passa desapercebido na vida de quem deseja, um dia, ser um profissional renomado, ter um apartamente amplo, uma boa casa de praia, dois carros na garagem e poder viajar com os filhos nas férias de meio de ano. A vida tem desses contrastes.

O desafio é valorizar, seja qual for a classe social, aquilo que se tem, controlando - de forma racional, é claro - a ambição que a sociedade capitalista impõe a todos nós. É preciso cultuar a simplicidade, afinal. Leonardo Boff, em um de seus mais recentes artigos, diz uma coisa interessante: os grandes homens que a humanidade já conheceu eram pessoas absolutamente simples. Estão nesta lista Jesus Cristo e Gandhi, por exemplo.

Enquanto escrevo neste blog, imagino o que estará fazendo, neste exato momento, a mulher da cocada. Penso, também, se amanhã ela passará novamente por minha rua, dando a ela sua tão familiar sonoplastia, enquanto estudo para o tal do vestibular que ela provavelmente não chegou a fazer.

Como diria Humberto Gessinger: "Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter..."

sábado, 10 de janeiro de 2009

Estrelas cadentes


I.

Elas não entendem de conflitos históricos, bélicos ou político-territoriais. Sequer são capazes de apreender o significado das palavras fundamentalismo, Hamas ou ofensiva militar, que ecoam das televisões e rádios em suas casas. Seus pais, reunidos em torno dos aparelhos eletrônicos, têm rostos tensos. O pai brada palavras ora de ódio, ora de apoio ao ouvir o caloroso discurso. A mãe chora baixinho. Num instante, as crianças compreendem o fato de que mesmo não sendo capazes de entender a guerra, elas a sentirão e a viverão integralmente...

II.

No sábado, dia 27, começou a temporada de estrelas cadentes. O menino de oito anos que nas noites de verão almejava com todas as suas forças ver no céu aqueles ágeis traços luminosos sabia que agora eles não eram bons sinais. O resultado de suas aparições era sempre o mesmo: um estrondo assustador seguido invariavelmente de choros e gritos. O garoto passou a evitar o céu: tinha medo das estrelas cadentes.

III.

As 257 crianças mortas na ofensiva israelense à faixa de Gaza exigiram uma mudança de metáfora. As estrelas cadentes, agora, são essas figuras infantis.

Poucos as viram brilhar: elas tiveram tempo escasso. Essas estrelas tinham sonhos: algumas queriam ser cantoras, outras médicas, outras, ainda, desejavam ser jogadores de futebol; essas estrelas sorriam, brincavam, amavam.

As que permaneceram, ficaram com seus brilhos ofuscados pelo sofrimento que sorveram durante os dias em que as estrelas-mísseis clarearam o céu. Algumas estrelas-cadentes perderam a perna, outras o braço. Algumas tiveram seu espírito mutilado pelo ódio que absorveram e com sorte não enveredarão pelo caminho da violência que levará embora algumas estrelas de Davi...

IV.

Que injustiça não compreender a guerra e, no entanto, vivê-la integralmente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Do acúmulo (ir)refletido



"Os seres humanos são dotados de uma natureza espiritual tal que não deveriam apenas possuir bens materiais, mas deveriam antes possuir sustento espiritual. Sem o sustento espiritual fica difícil adquirir e manter a paz de espírito"
Dalai Lama

De repente, ela viu que não havia sequer espaço para interrogações. Eram sapatos, bolsas, brincos, pulseiras e anéis perdidos no meio do esquecimento e da inutilidade. Nas prateleiras, os acessórios zombavam dela. Riam especialmente de seu olhar perdido no meio tanta informação e tão pouco conteúdo. Naquele dia, ela decidiu mudar. Separou uma caixa e, dentro dela, despejou a maior parte das peças que por anos acumulara sem perceber que não precisava de tudo aquilo.

Suando após o ritual de desprendimento terapêutico, pôs o que juntou dentro do carro e findou por doar tudo ao Armazém da Caridade. Sentiu-se bem, por fim. Daquele momento em diante pregaria o desapego aos bens materiais, afinal “o essencial é invisível aos olhos”, já dizia um escritor francês. Teve, então, uma idéia: faria uma viagem de quatro meses ao Tibete e buscaria apreender um pouco dos ensinamentos básicos budistas, tão bonitos que eram. Dirigiu até a agência de viagens, programou o roteiro espiritual, fechou negócio.

Na volta para casa, passou no shopping. Não dá para visitar o Tibete levando na mala (já velhinha, desgastada, talvez até seja preciso uma nova...) apenas as roupas que permaneceram no armário, não é mesmo?

Ah, o consumismo...

-x-
P.S.: Mesmo que se diga o contrário, shoppings lotados são bastante inspiradores.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O tempo e seus milagres



Ultimamente tenho vivido experiências e sensações que, por suas profundidades e particularidades, aparecem para mim com o imperativo de escrever sobre elas, mesmo que na maior parte dos casos eu lute por um distanciamento do que produzo por aqui.

O fato é que na noite da última sexta-feira, de repente, me vi em outra Natal. Por cerca de três horas, estive na Natal de Antônio Campos e Silva, de Astor, de Edgar, de Ciro e de tantos outros homens que, como os últimos três, se reencontravam após 50 anos de pouco ou nenhum contato. Esses senhores eram concluintes do científico - hoje segundo grau - do ano de 1958, no colégio Marista. No coquetel do reencontro da turma, pairava no ar um sentimento de alegria nostálgica irresistível. Eu estava ali representando meu falecido avô, que também pertenceu àquele grupo. Abraços calorosos, exclamações de espanto e risada s sonoras que eram ouvidas quando o apelido de infância de determinado colega vinha à tona ou quando algum fato engraçado era relembrado enchiam o recinto onde ocorria o evento.

Após cinqüenta anos, ali estavam indivíduos que compartilharam juntos o tempo no qual usavam calças curtas, jogavam bola e começavam a se aventurar pelos relacionamentos amorosos. Certamente estavam reunidas ali pessoas que, quando jovens, nutriram rancores adolescentes e aborrecimentos infundados entre si. Esses homens, sexta-feira, abraçavam-se como irmãos. De repente, um lampejo: quantos desgastes emocionais poderiam ser evitados se soubéssemos que, anos depois, aqueles acontecimentos que tanto nos preocupavam ganhariam uma dimensão mínima diante do turbilhão que é a vida e da maturidade que ganhamos com as experiências que o tempo nos oferece? Recordando mais uma vez Gabriel García Márquez, que tem uma infinidade de verdades bem-ditas (ou seriam benditas?) publicadas em seus livros, aqui se encaixa perfeitamente a frase: “A sabedoria só nos chega quando já não serve mais para nada...".

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A velhice nos tempos do cólera

O escritor colombiano Gabriel García Márquez - a velhice também chegou para ele


"Pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte"
(O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez)


Vi-a sentada defronte ao espelho, cheia de uma dignidade discreta. A mulher deveria ter mais de oitenta anos. Olhava o que os profissionais do salão de beleza faziam com seu pouco cabelo de forma disfarçadamente preocupada, como se à sua idade o incômodo demasiado com a aparência fosse bizarro. Seu corpinho era frágil, encurvado –“O tempo pesa”, pensei ter lido em sua postura – e seus reflexos eram notadamente lentos.

À primeira vista a cena pareceu-me triste: uma senhora idosa buscando resgatar sem sucesso uma beleza que se esvaiu quando começaram a aparecer em suas mãos as rugas e em sua cabeça os primeiros sinais de alzheimer. O quadro seria melancólico se eu não tivesse percebido em seu olhar envelhecido aquela chama de vaidade e auto-estima que se apodera das mulheres quando fazemos algo por nós mesmas.

A velhinha do salão lembrou-me uma experiência emocionante vivida por mim ano passado. Durante uma ação voluntária realizada em um abrigo para idosos no bairro de Mãe Luíza, eu e trinta amigos fizemos um bingo para os velhinhos ali presentes. Estive ao lado de uma senhora que, mal-humorada, recusou-se a participar da brincadeira e findou por ganhar de prêmio-consolação um chaveiro. Ela gostou do presente, mas insistia incessantemente para que eu retirasse do objeto a argola que deveria se unir às chaves. Relutei de início. Tentava explicar à mulher miudinha que, sem o aro, o chaveiro não teria serventia. Por fim, desisti de convencê-la e retirei a argola. Qual não foi minha surpresa quando a velhinha pegou o aro metálico e, colocando-o no dedo indicador, abriu-me um sorriso sem dentes e me disse de forma quase indecifrável: “Olha meu anel!”.

Uma sociedade que não valoriza seus idosos definitivamente não aprendeu por completo a lição de civilidade. Na velhice há, sim, beleza, amor próprio, vida. Gabriel García Márquez sabia tanto disto que escreveu em seu livro “O amor nos tempos do cólera” uma das mais belas reflexões sobre a vida que pulsa com vigor mesmo quando a juventude já partiu há muito tempo.

Em vez de correr desesperadamente contra a corrente dos anos, na recusa permanente de ver que o tempo pesa sobre todos, deveríamos nos empenhar em expandir qualidade de vida na velhice, reconhecendo que os idosos têm, tanto quanto os mais jovens, uma necessidade enorme de serem o que desejam ser.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Emaranhado de nomes

Say cheese - Anthony Falbo.

Na leitura de revistas como Época e Veja, normalmente me destino diretamente às notícias sobre livros e cultura em geral, pulando sem culpa as páginas voltadas à vida política do país. Hoje fiz diferente. Arrisquei-me, com a última edição da Época, a ler por completo a seção que geralmente evito, a começar pela reportagem: " A jogada de Tarso", que trata das manobras políticas do ministro da Justiça Tarso Genro para permanecer no cargo, em meio aos escândalos da Abin e à disputa pelo poder na Polícia Federal entre duas facções antagônicas.

Confesso que li duas vezes a reportagem para apreender por completo as informações que ela apresentava. Não porque o texto estivesse mal redigido, pelo contrário: achei a redação excelente. A dificuldade, no meu caso, foi entender e memorizar a teia complicadíssima de nomes, cargos e interesses divergentes e particulares que compunham as quatro páginas da reportagem.
Assustou-me o fato de que todo aquele emaranhado de jogadas sujas tivesse como finalidade única algo tão efêmero quanto o poder. Arrepiou-me ainda mais pensar que são eles, os donos daqueles nomes que soavam para mim como ecos distantes, os responsáveis por trilhar os rumos de um país com 188. 298. o99 de habitantes, dos quais 12 % são analfabetos e outros 30% analfabetos funcionais, incapazes de conhecer o que se passa em sua nação não necessariamente por omissão pessoal, mas porque o sistema educacional do Brasil não foi capaz de lhes fornecer a instrução necessária. Onde eu estava com a cabeça quando me recusei a abrir meus olhos e ouvidos para as ondas de politicagem e mau-caratismo que insistem em fazer nosso país submergir para cada vez mais perto do caos? Os nomes dos responsáveis por nosso fracasso como nação estão por aí, soltos em páginas que nos negamos a ler. E o que é pior: seu nomes, assim como o de todos os exemplares da mesquinharia humana, passam, enquanto as conseqüências de seus atos ficam de legado para toda a sociedade.

Pouco afeita a esse tipo de leitura, me debruçarei com determinação -já que esta é uma ferramente indispensável para quem deseja entender o quadro político brasileiro - sobre notícias relacionadas com os bastidores do nosso governo. Farei isso não por que meu interesse por essas falcatruas se equipare àquele que nutri minha vida toda pela literatura, por exemplo. Minha decisão é motivada mais por um dever de cidadã capaz de compreender as páginas de uma revista e por alimentar, mesmo de longe, a esperança de ser surpreendida com indicadores de mudança numa dessas aventuras pelas páginas políticas do Brasil.