segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Do acúmulo (ir)refletido



"Os seres humanos são dotados de uma natureza espiritual tal que não deveriam apenas possuir bens materiais, mas deveriam antes possuir sustento espiritual. Sem o sustento espiritual fica difícil adquirir e manter a paz de espírito"
Dalai Lama

De repente, ela viu que não havia sequer espaço para interrogações. Eram sapatos, bolsas, brincos, pulseiras e anéis perdidos no meio do esquecimento e da inutilidade. Nas prateleiras, os acessórios zombavam dela. Riam especialmente de seu olhar perdido no meio tanta informação e tão pouco conteúdo. Naquele dia, ela decidiu mudar. Separou uma caixa e, dentro dela, despejou a maior parte das peças que por anos acumulara sem perceber que não precisava de tudo aquilo.

Suando após o ritual de desprendimento terapêutico, pôs o que juntou dentro do carro e findou por doar tudo ao Armazém da Caridade. Sentiu-se bem, por fim. Daquele momento em diante pregaria o desapego aos bens materiais, afinal “o essencial é invisível aos olhos”, já dizia um escritor francês. Teve, então, uma idéia: faria uma viagem de quatro meses ao Tibete e buscaria apreender um pouco dos ensinamentos básicos budistas, tão bonitos que eram. Dirigiu até a agência de viagens, programou o roteiro espiritual, fechou negócio.

Na volta para casa, passou no shopping. Não dá para visitar o Tibete levando na mala (já velhinha, desgastada, talvez até seja preciso uma nova...) apenas as roupas que permaneceram no armário, não é mesmo?

Ah, o consumismo...

-x-
P.S.: Mesmo que se diga o contrário, shoppings lotados são bastante inspiradores.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O tempo e seus milagres



Ultimamente tenho vivido experiências e sensações que, por suas profundidades e particularidades, aparecem para mim com o imperativo de escrever sobre elas, mesmo que na maior parte dos casos eu lute por um distanciamento do que produzo por aqui.

O fato é que na noite da última sexta-feira, de repente, me vi em outra Natal. Por cerca de três horas, estive na Natal de Antônio Campos e Silva, de Astor, de Edgar, de Ciro e de tantos outros homens que, como os últimos três, se reencontravam após 50 anos de pouco ou nenhum contato. Esses senhores eram concluintes do científico - hoje segundo grau - do ano de 1958, no colégio Marista. No coquetel do reencontro da turma, pairava no ar um sentimento de alegria nostálgica irresistível. Eu estava ali representando meu falecido avô, que também pertenceu àquele grupo. Abraços calorosos, exclamações de espanto e risada s sonoras que eram ouvidas quando o apelido de infância de determinado colega vinha à tona ou quando algum fato engraçado era relembrado enchiam o recinto onde ocorria o evento.

Após cinqüenta anos, ali estavam indivíduos que compartilharam juntos o tempo no qual usavam calças curtas, jogavam bola e começavam a se aventurar pelos relacionamentos amorosos. Certamente estavam reunidas ali pessoas que, quando jovens, nutriram rancores adolescentes e aborrecimentos infundados entre si. Esses homens, sexta-feira, abraçavam-se como irmãos. De repente, um lampejo: quantos desgastes emocionais poderiam ser evitados se soubéssemos que, anos depois, aqueles acontecimentos que tanto nos preocupavam ganhariam uma dimensão mínima diante do turbilhão que é a vida e da maturidade que ganhamos com as experiências que o tempo nos oferece? Recordando mais uma vez Gabriel García Márquez, que tem uma infinidade de verdades bem-ditas (ou seriam benditas?) publicadas em seus livros, aqui se encaixa perfeitamente a frase: “A sabedoria só nos chega quando já não serve mais para nada...".

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A velhice nos tempos do cólera

O escritor colombiano Gabriel García Márquez - a velhice também chegou para ele


"Pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte"
(O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez)


Vi-a sentada defronte ao espelho, cheia de uma dignidade discreta. A mulher deveria ter mais de oitenta anos. Olhava o que os profissionais do salão de beleza faziam com seu pouco cabelo de forma disfarçadamente preocupada, como se à sua idade o incômodo demasiado com a aparência fosse bizarro. Seu corpinho era frágil, encurvado –“O tempo pesa”, pensei ter lido em sua postura – e seus reflexos eram notadamente lentos.

À primeira vista a cena pareceu-me triste: uma senhora idosa buscando resgatar sem sucesso uma beleza que se esvaiu quando começaram a aparecer em suas mãos as rugas e em sua cabeça os primeiros sinais de alzheimer. O quadro seria melancólico se eu não tivesse percebido em seu olhar envelhecido aquela chama de vaidade e auto-estima que se apodera das mulheres quando fazemos algo por nós mesmas.

A velhinha do salão lembrou-me uma experiência emocionante vivida por mim ano passado. Durante uma ação voluntária realizada em um abrigo para idosos no bairro de Mãe Luíza, eu e trinta amigos fizemos um bingo para os velhinhos ali presentes. Estive ao lado de uma senhora que, mal-humorada, recusou-se a participar da brincadeira e findou por ganhar de prêmio-consolação um chaveiro. Ela gostou do presente, mas insistia incessantemente para que eu retirasse do objeto a argola que deveria se unir às chaves. Relutei de início. Tentava explicar à mulher miudinha que, sem o aro, o chaveiro não teria serventia. Por fim, desisti de convencê-la e retirei a argola. Qual não foi minha surpresa quando a velhinha pegou o aro metálico e, colocando-o no dedo indicador, abriu-me um sorriso sem dentes e me disse de forma quase indecifrável: “Olha meu anel!”.

Uma sociedade que não valoriza seus idosos definitivamente não aprendeu por completo a lição de civilidade. Na velhice há, sim, beleza, amor próprio, vida. Gabriel García Márquez sabia tanto disto que escreveu em seu livro “O amor nos tempos do cólera” uma das mais belas reflexões sobre a vida que pulsa com vigor mesmo quando a juventude já partiu há muito tempo.

Em vez de correr desesperadamente contra a corrente dos anos, na recusa permanente de ver que o tempo pesa sobre todos, deveríamos nos empenhar em expandir qualidade de vida na velhice, reconhecendo que os idosos têm, tanto quanto os mais jovens, uma necessidade enorme de serem o que desejam ser.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Emaranhado de nomes

Say cheese - Anthony Falbo.

Na leitura de revistas como Época e Veja, normalmente me destino diretamente às notícias sobre livros e cultura em geral, pulando sem culpa as páginas voltadas à vida política do país. Hoje fiz diferente. Arrisquei-me, com a última edição da Época, a ler por completo a seção que geralmente evito, a começar pela reportagem: " A jogada de Tarso", que trata das manobras políticas do ministro da Justiça Tarso Genro para permanecer no cargo, em meio aos escândalos da Abin e à disputa pelo poder na Polícia Federal entre duas facções antagônicas.

Confesso que li duas vezes a reportagem para apreender por completo as informações que ela apresentava. Não porque o texto estivesse mal redigido, pelo contrário: achei a redação excelente. A dificuldade, no meu caso, foi entender e memorizar a teia complicadíssima de nomes, cargos e interesses divergentes e particulares que compunham as quatro páginas da reportagem.
Assustou-me o fato de que todo aquele emaranhado de jogadas sujas tivesse como finalidade única algo tão efêmero quanto o poder. Arrepiou-me ainda mais pensar que são eles, os donos daqueles nomes que soavam para mim como ecos distantes, os responsáveis por trilhar os rumos de um país com 188. 298. o99 de habitantes, dos quais 12 % são analfabetos e outros 30% analfabetos funcionais, incapazes de conhecer o que se passa em sua nação não necessariamente por omissão pessoal, mas porque o sistema educacional do Brasil não foi capaz de lhes fornecer a instrução necessária. Onde eu estava com a cabeça quando me recusei a abrir meus olhos e ouvidos para as ondas de politicagem e mau-caratismo que insistem em fazer nosso país submergir para cada vez mais perto do caos? Os nomes dos responsáveis por nosso fracasso como nação estão por aí, soltos em páginas que nos negamos a ler. E o que é pior: seu nomes, assim como o de todos os exemplares da mesquinharia humana, passam, enquanto as conseqüências de seus atos ficam de legado para toda a sociedade.

Pouco afeita a esse tipo de leitura, me debruçarei com determinação -já que esta é uma ferramente indispensável para quem deseja entender o quadro político brasileiro - sobre notícias relacionadas com os bastidores do nosso governo. Farei isso não por que meu interesse por essas falcatruas se equipare àquele que nutri minha vida toda pela literatura, por exemplo. Minha decisão é motivada mais por um dever de cidadã capaz de compreender as páginas de uma revista e por alimentar, mesmo de longe, a esperança de ser surpreendida com indicadores de mudança numa dessas aventuras pelas páginas políticas do Brasil.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Um brinde! - Quarta e última parte.

Finalmente o conto recebe um desfecho. A intenção não era de que esta última parte ficasse longa demais; se ficou, desculpem-me :)
Beijo,
Ana Luiza.
-x-

Ofereceu a Augusto o braço para que juntos caminhassem pelo salão. Chegaram ao jardim de árvores podadas e sentaram-se num banco defronte a uma fonte. Ouviam, dali, apenas rumores da grande festa. A mulher lançou um olhar oblíquo para Augusto.

- E então? Não proferiu palavra desde que nos reencontramos. Creio até que não te lembras mais de mim...
- Impossível esquecê-la. Naquela tarde não aconteceu nada extraordinário, mas você simplesmente deixou marcas inesquecíveis.
- Muitos já me falaram do meu poder de fascínio...
- Quem é você, afinal?
- Logo saberás. Antes, conte-me como viveu. O que amou e pelo o que lutou. Sessenta anos passam rápido, apesar de constituírem muito tempo.
- Amei a vida, em primeiro lugar. Vivi-a intensamente. Amei o império farmacêutico que construí, amei a casa na qual morei, amei as artes. Apaixonei-me por muitas mulheres.
- Amou alguma?
- Não, nunca. O meu egocentrismo não me permitiu amar a nenhuma delas verdadeiramente. Mas amei um pouco cada uma... E se de gota em gota faz-se o oceano, creio que amei demais! -confidenciou Augusto entre risos.
- É o que dizem... - sentenciou a mulher, não muito convencida. - E sua luta para reconstruir a indústria de sua família valeu a pena? Você salvou muitas vidas?
- Minha cara, para quê tantas perguntas logo a um velho como eu? Na idade em que estou essas meditações só devem ser feitas num leito de hospital, pouco antes do suspiro final. Caso contrário, o ser que medita sobre as questões que você me fez corre o risco de fechar-se em si, mesmo quando, aos oitenta e seis anos, a alma precisar ser uma janela escancarada para o mundo. Mas já que você insiste, respondo: minha luta valeu. Não digo isto pelo espírito altruísta que se supõe num homem cuja vida foi desenvolver remédios para que os outros vivessem também. A luta valeu a pena porque me permitiu conquistar tudo o que sempre sonhei: sucesso, poder, amigos interessantes, dinheiro para colecionar obras de arte e realizar festas como esta. Quanto à saúde que levei a muita gente, sinto-me lisonjeado por ela, mas, para ser sincero, o bem-estar das pessoas foi conseqüência natural da minha jornada e não o objetivo dela.
- Ora, ora... Não esperava toda essa franqueza vinda de você, Augusto Puce. Sugeriria que você fizesse um discurso menos sincero da próxima vez, se ela ainda fosse possível – disse ela, ironicamente. - De qualquer forma, saiba que você fez um grande favor a mim todo esse tempo. Sua indústria retardou meu trabalho, poupou-me de esforços sem sentido.
- Desculpe-me, mas volto à pergunta: quem é você?
- Não sabes ainda, Augusto? Sou a Morte, homem. Salvei você uma vez, pois sabia que seu destino era aliviar um pouco o peso da minha responsabilidade: já bastavam os sem-vida com os quais eu devia arcar e ainda vinham as epidemias e as doenças incontroláveis que me obrigavam a transportar até aqueles que deviam permanecer um pouco mais.
-Logo vi que você não pertencia a este mundo... É por ser a Morte que você não envelheceu, não é? Mantém-se com mesma face de mistério daquela tarde de outono. – concluiu ele, atônito. - Então quer dizer que passei a vida lutando contra você? – perguntou por fim.
- Lutando contra mim? Não, de forma alguma... Na verdade, não gosto muito do papel que desempenho, mas como não há escolha, o faço. Ás vezes, eu preciso do apoio de pessoas como você.
- E cumprida minha missão, veio me levar? – perguntou Augusto, sombrio, mas firme
-Vim, meu querido. A hora chegou. Mas não se preocupe: serei doce. – E aproximou-se do homem, acariciando seus cabelos brancos como uma mãe nina seus filhos, enquanto lindos fogos de artifícios iluminavam a noite.

No outro dia, os jornais noticiaram a morte natural de Augusto Puce, encontrado morto e sorrindo sobre um banco do seu jardim, durante a festa de seu octogésimo sexto aniversário. Por todo o mundo, a notícia se espalhou com o seguinte subtítulo: “Morre Augusto Puce, homem cuja maior paixão foi salvar vidas.”

Um brinde! - Parte III

Galáxia de esferas - Salvador Dalí.

- Não, você não quer morrer... - disse aquela figura diferente. Tinhas olhos negros e os cabelos idem, lisos e escorrendo pelos ombros. Era frágil e muito alva.
- Vamos, deixe-me ver essa carta -Replicou ela, tomando das mãos de Augusto o papel ligeiramente amassado. - Olhe só isto... Todo esse melodrama! Já vi cartas de suicídio melhores que esta. E sua pretensão era enfiá-la nessa garrafa? - disse-lhe, apontando para a garaffa de conhaque aos pés de Augusto - Muito clichê! - Concluiu, rindo.
-Quem é você para julgar a minha carta? E como sabia que eu quero morrer? - perguntou Augusto, ainda tonto.
- E preciso saber de alguma coisa? Basta ver seu rosto, Augusto...
- Como sabe meu nome?
- Estava assinado em sua carta.
- Ah, é mesmo...
- Mas essa história de morrer não procede, moço. Tão jovem, com um futuro tão brilhante. Idependente do que tenha acontecido, você reconstruirá tudo rapidamente, tenho certeza.
- Como pode ter essa certeza? Sou um fracasso. Foi por causa da minha estupidez que todo o esforço de gerações se perdeu.
- Mas você recuperará tudo e será ainda maior que seus antepassados... Verei seu nome estampado em jornais e revistas em anos.
- Falar é fácil... Como vou fazer para reconquistar as coisas que perdi?
- Pense, homem. Será que você não tem nenhum dinheiro aplicado na bolsa? Digo isso porque já vi que seu problema é financeiro... Resgate o dinheiro e recupere sua empresa, simples.
- Eu não tinha pensado assim.
- É exatamente por isso que estou aqui e é também por essa razão que você estava pensando em tamanha tolice; não que a Morte seja tolice, não se trata disto... Mas às vezes não é o momento dela. Entretanto, preste atenção: você deverá recuperar, além dos bens materiais, sua vida espiritual, suas virtudes. Não se esqueça disso.- Farei isso, muito obrigado pela ajuda - disse-lhe Augusto, tomando as mãos da moça e dando nelas beijos atrapalhados- Nunca poderei lhe pagar pela ajuda que você me deu.
- Ah, não se preocupe - respondeu ela, rindo pelo gesto desajeitado do rapaz - Sua dívida será quitada pelo seu sucesso. Daqui a sessenta anos te procurarei para o nosso acerto de contas.

Levantou-se, sacudiu do vestido a areia e sumiu. Augusto não tornou a vê-la e tampouco procurou saber seu nome, atordoado que estava. Pensou, por muito tempo, que a moça era fruto de sua embriaguez. Delírio ou não, o futuro vislumbrado por ela se concretizou. Em poucos anos Augusto retomou o patrimônio da família e tornou-se famoso mundialmente pela Puce e Cia. Indústria Farmacêutica. Até Olívia o buscou novamente, mas ele não a aceitou de volta, assim como nunca enxergou como único e definitivo nenhum de seus demais romances. Comprometera-se com a lembrança daquela tarde de outono.

Mas a moça da praia existia e lá estava ela, caminhando na direção de Puce, alheia, também, às pessoas aos seu redor, que pareciam não notá-la.

Chegando a Augusto, sorriu:
- Vim receber meu pagamento.

(Continua...)
-x-

Para ser sincera, minha vontade é de publicar aqui outra coisa que não esse conto. Mas já que não há outro remédio para evitar uma quebra de seqüência, o jeito é tomá-lo de uma vez, sem interromper os goles. O fim vem rápido, prometo. Só mais uma parte.

Beijo,
Ana Lú.

domingo, 12 de outubro de 2008

Um brinde! - Parte II


A multidão abre-se para permitir a passagem do velho. "Obrigado, muito obrigado" era o que ele balbuciava para os que o envolviam.

Augusto toma o microfone e, mais uma vez, faz-se o silêncio, este muito mais envolto em expectativa que o primeiro.

-Meus amados amigos e amigas, nada me dá maior felicidade que o sorriso de vocês esta noite. Comemoramos, hoje, não apenas meu aniversário - que, diga-se de passagem, não seria digno de tamanha festa. Estamos celebrando, sim, os sessenta anos da maior indústria farmacêutica da atualidade, responsável por salvar inúmeras vidas e por proporcionar a doentes do mundo inteiro um pouco mais de alegria. O brinde que proponho, então, é para a Puce e Cia, sonho idealizado e concretizado por mim quando meus cabelos não eram tão brancos... Vamos, brindemos todos! - finaliza Augusto, levantando sua taça.

E a sincronia com que todos acompanharam seus gestos e beberam do seu champagne fez brilhar os olhos do magnata dos remédios. "Graças a Deus nunca precisei das drogas que fabrico", costumava dizer Puce, vangloriando-se de sua saúde de ferro, apesar da vida regada a fumo e álcool.

De repente Augusto estancou. As pessoas ao redor, as risadas e a música... Tornara-se cego e surdo para tudo. Via apenas ela. Cumprira o prometido, afinal. Aguardava-a há algum tempo e já havia passado noites em claro imaginando como seria o reencontro. Não havia mudado desde a primeira vez que a viu, sessenta anos antes. A mesma postura ressabiada, a tez pálida, os cabelos negros descendo pelos ombros. Sim, ela veio. Agora, o que restava-lhe?

Era uma tarde de outono em 1948. O céu nublado, a brisa fria... Tudo parecia cinza naquele dia. Depois da segunda garrafa de conhaque, Augusto decidira se perder na imensidão azul do mar para nunca mais ser encontrado. Olívia, sua noiva, o havia abandonado depois que a empresa farmacêutica deixada por Frederico Puce- que nunca confiou no talento administrativo do filho, ocupado demais em festas e romances - faliu. Sem dinheiro, sem amor, Augusto resolveu que a vida não valia mais a pena. "Coisas de um jovem romântico sem muito juízo...", dizia ele, recordando o fato para a legião de ouvintes que não cansava da história. Já começara a enfiar numa garrafa a carta de suicídio, na qual perdia perdão ao mundo por ter um dia o habitado, quando ao seu lado, na areia, sentou-se a criatura mais linda que ele já tinha visto.

(Continua...)
-x-

Antes de tudo, peço desculpas pela demora em continuar o conto (é que a cabeça e a rotina andavam meio bagunçadas) e asseguro que não será assim daqui pra frente: a continuação virá ainda essa semana.

Beijos e boa leitura,

Aninha.

domingo, 21 de setembro de 2008

Um brinde! - Parte I


Como em todos os anos de sua vida, Augusto Puce não deixara de preparar, para a celebração dos seus 86 anos, uma grande festa. As melhores bebidas e comidas eram servidas em bandejas ornamentadas com frutas e flores exóticas. A iluminação trazia uma aura especial para o momento, que reunia nos salões da mansão do magnata grandes personalidades e amigos de longas datas, todos vestidos de glamour e riqueza. A música refinada e a profusão de cores e rosas que compunham a decoração completavam o fascínio da cena. Tudo estava em perfeito acordo com o requintado gosto do octagenário.

Do alto da escada em espiral que mandara construir trinta anos antes, Augusto contemplava aqueles rostos familiares que sorriam e dançavam ao som de Non, je ne regrette rien*. Seus exuberantes e perspicazes, mesmo que envelhecidos, olhos verdes admiravam a festa freqüentada por mulheres lindas e homens elegantes. Sim, ele se acostumara a viver nesse mundo perfumado e luminoso e não escolheria vida diferente se tivesse de nascer novamente. A coleção de quadros que preenchia as paredes de toda a residência, as maçanetas douradas e minimalistas... Todas aquelas coisas estavam gravadas na memória de Augusto e tinham para ele um grande valor sentimental.

A noite estaria completa se, dentre tanta gente, não faltasse alguém. "Onde está você?", perguntava-se o velho, com agonia. As suas divagações, no entanto, não se estenderam por muito tempo. Seus pensamentos foram interrompidos quando seu sobrinho ordenou e a paralisação da música. Fez-se um silêncio mágico. Tomando o microfone, o rapaz anunciou:
-Senhoras e senhoras, eu vos anuncio a presença daquele que é a razão desta celebração e o motivo pelo qual estamos aqui hoje. Uma salva de palmas para meu querido tio e amigo, o grande Augusto Puce!

As palmas e aclamações encheram o recinto. O velho Puce, amparado por uma bengala, mas sem perder o charme e a altivez inerentes a ele, desce a escada e cumprimenta com seu sorriso hipnótico os convidados, eufóricos com a presença do homem.

(Continua...)
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Inicia-se com esta postagem o conto "Um brinde!", cuja continuidade será dada nos posts que se seguirão. Espero que se divirtam!
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*Música composta por Michel Vaucaire e Charles Dumont, eternizada pela voz da francesa Edith Piaf. Para ouvi-la, acesse: http://www.youtube.com/watch?v=kFRuLFR91e4 . Para ver sua tradução: http://http//vagalume.uol.com.br/cassia-eller/non-je-ne-regrette-rien-(traduzida).html .

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Pequena história urbana

"Creio que ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam"
Aquarela e frase retiradas do livro 'Le petit prince" ("O pequeno príncipe"), por Saint Exupéry
Deixou o monumental edifício empresarial onde trabalhava e iniciou sua caminhada, de pasta e paletó na mão, sem destino certo. Passou a vida correndo de um lado para outro, mas nunca soube exatamente o que buscava. Desde muito pequeno fora lapidado para ser o melhor e agora, tendo conquistado o tão almejado sucesso profissional, não se sentia pleno. Descobrira há poucos instantes que sempre sonhou os sonhos alheios, sem nunca ter parado para pensar se o rumo que dava à sua existência era de fato aquele que queria trilhar.

Gostaria de se livrar daquela gravata que o apertava. Queria jogar fora a pasta que tinha de carregar para todos os lugares e percebeu que odiava usar paletó, o qual lhe trazia um calor insuportável.

E foi assim, pensando em tudo e ao mesmo tempo em nada, que arrancou a gravata, jogou no chão o paletó e a pasta e se pôs a correr, indiferente aos olhares das pessoas civilizadas que o observavam com olhos de repreensão e espanto. Não ouvia os gritos dos transeuntes cada vez que esbarrava em um deles. Não via os carros quando atravessava as largas avenidas, provocando buzinas e xingamentos dos já muito estressados motoristas. Corria, apenas. Sentia sua respiração ofegante e isto lhe bastava.

Parou de frente para o mar e reparou que nunca o havia contemplado com tanta intensidade. Como era lindo! Sentou-se na areia, passou as mão nos cabelos iluminados pelos últimos raios de Sol. A vida era bela, pois sim. Afinal, seria sempre possível afrouxar o nó da gravata, largar pasta e paletó na calçada e correr até cansar.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Embaixo do nosso nariz

Indigente - Foto tirada na cidade de Salvador, Bahia, pela blogueira que vos fala

Iniciaram segunda-feira, 25/08, as inscrições para a SOI -Simulação das Organizações Internacionais- que este ano destinou como comitê para os alunos do ensino médio a OMS (Organização Mundial da Saúde), tratando do tema "AIDS: combate e prevenção".

Como no ano passado, fiz rapidamente minha inscrição para o evento e aguardo ansiosamente seu início. O que me veio à mente esses dias, no entanto, foi um questionamento a respeito da aplicabilidade prática daquilo que discutimos não apenas na SOI, mas em nossas salas de aula, na internet e em outros meios que permitem a livre circulação idéias e conhecimento. Não que sejam inválidas discussões a respeito da AIDS ou do conflito árabe-israelense, por exemplo. Pelo contrário: é debatendo que se formam opiniões e com as relações internacionais a todo vapor, os problemas da pandemia a AIDS ou do impasse palestino também são preocupações nossas.

Assusta-me, todavia, que tanta energia e tempo sejam desperdiçados na busca por soluções para problemas tão distantes da nossa realidade, quando, na verdade, grandes dilemas sociais estão presentes pertinho de nós, em nosso país, em nosso Estado, em nossa cidade.

Será que não seria melhor encontrar a solução para a superlotação no presídio de Alcaçuz antes de lutar por inalcançáveis resoluções a respeito do terrorismo no Oriente Médio? Não seria mais eficaz tentar resolver o problema da corrupção em nossa câmara de vereadores no lugar de buscar o fim do desvio das verbas para a saúde nos países africanos? Imaginem se durante quatro dias os jovens discutissem a elaboração de um documento que, em vez de uma fantasia, fosse real e dirigido a nossas autoridades.

É inquestionável a importância da SOI para os estudantes do ensino médio e universitários interessados em relações exteriores e direito internacional. E é dificílimo ver alguém que, participando uma vez, não sinta vontade de participar novamente. Esse evento, aliás, realiza tudo ao qual ele se propõe: uma simulação das organizações internacionais.

O que não dá para negar é que existem feridas sociais muito graves na esquina de nossa rua e que a cura para elas, que só poderá vir com a participação da sociedade em geral, especialmente do jovem, parece estar longe de ser encontrada e, o pior de tudo, de ser discutida, estudada.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

É isso aí

A decepção de Marta após a derrota na partida que renderia o ouro olímpico.
(Foto retirada do site estadao.com, por Roberto Candia/AP)

Não entendo muito de futebol. Aliás, não sou uma especialista nos esportes, seja qual for a categoria. Entretanto, se houve coisas que me chamaram a atenção no jogo da seleção feminina nesta manhã de quinta-feira foram a disposição e o amor à camisa que nossas meninas demonstraram em campo. Nada parecido com a partida vergonhosa da seleção masculina, que se acovardou e levou uma goleada da Argentina, nossa rival histórica, sem ser capaz de mostrar por que dizem que o Brasil tem o melhor futebol do mundo.

Diferentemente da equipe masculina, a seleção feminina não é composta por milionários, reconhecidos mundialmente. As mulheres do futebol brasileiro, apesar de terem vencido enormes barreiras, ainda possuem um espaço periférico no esporte nacional e a muito custo alcançam os patrocínios necessários a suas participações em competições mundiais, nas quais sempre são destaque.

Guerreiras em campo e na vida real, as meninas do nosso futebol mostraram o que é lutar até o último minuto em busca de um sonho. A maioria delas, oriundas das classes sociais desprivilegiadas, só conquistaram o lugar na seleção por terem sido em suas vidas aquilo que foram neste jogo: determinadas e perseverantes. Que Marta, Cristiane e outros talentos dessa equipe sejam para nós exemplos, sempre.

E se por algum momento o clichê "é mais importante competir" vigorou nas Olimpíadas de Beijing, esse momento foi hoje. Ver nossa seleção feminina de futebol competir nos trouxe orgulho e, mesmo o ouro não vindo, ficou a honra ver mulheres lutando tão bravamente por nossa camisa verde e amarela em um esporte predominantemente masculino.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A casa na árvore

Árvores no jardim Asylum - Van Gogh
Eu tinha nove anos quando vovó resolveu dar-me de presente uma casa na árvore. O local escolhido para ser base da minha fantasia era o mais imponente cajueiro da granja dos meus avós, com galhos fortes e extensos, nos quais eu passava tardes inteiras fingindo estar nos bosques do Sítio do Pica-pau Amarelo, brincando com Emília e tendo conversas amigáveis com Visconde de Sabugosa.

Lembro-me bem que a construção da casinha durou dois meses (para mim, uma eternidade) e que minhas expectativas foram em muito superadas pelo primor com que meus avós construíram a materialização dos meus sonhos infantis: a casa era rosa, possuía escada, sala, cozinha e duas janelas cobertas por cortinas amarelas decoradas por lacinhos vermelhos.

Eis que a casa na árvore marcou o apogeu e fim da minha infantilidade. Era um dia quente de dezembro quando subi no local que há muito já me era familiar e na cortina da cozinha lá estava a responsável pelos meus pesadelos de meses depois: uma aranha caranguejeira enorme, peluda, balançando as patinhas e se deslocando lentamente pelo tecido, como se nela houvesse prazer em me apavorar. Tamanho foi o medo que até voz para gritar me faltou e, não sei bem como, rolei escada abaixo. A minha última lembrança daquele dia foi ter observado do chão, com o tornozelo torcido e a boca cheia de areia, a imagem da minha casinha, tomada por assalto pela aranha que até hoje me vem na memória quando sofro algum fracasso.

Não voltei a subir na casa e, após o fato, nunca mais brinquei com as demais crianças com a empolgação habitual. A casa na árvore e a aranha foram os divisores de água entre minha infância e puberdade. Foi a partir daquele dia que percebi o quanto frustração e covardia podem permear alguns momentos de nossas vidas e que mesmo quando tudo parece bem, somos falíveis e sujeitos a perdas.

Mas continuo sentindo gosto de infância e cheiro de cajú quando lembro da minha linda casa na árvore.

sábado, 9 de agosto de 2008

Mundo velho sem porteira

Meninos soltando pipas - Portinari

Eram oito e quinze de uma melancólica manhã de domingo quando o telefone tocou na casa de Antônio, quebrando o silêncio tão habitual naquele dia da semana.
-Pai, tia Vera quer falar com você - disse seu filho mais novo, Rodrigo, que após atender ao telefone deixa-o ao lado do gancho e sai para jogar futebol com seus vizinhos do condomínio luxuoso onde moravam.
-Alô? Oi, Vera - atende Antônio com displicência.
-Antônio, o papai morreu - diz a mulher ao telefone, mal podendo conter o choro - Foi infarto fulminante; quando mamãe percebeu ele já não respirava mais - prosseguiu ela, enquanto o seu irmão, no outro lado da linha, não esboçava nenhuma reação - É muito importante sua presença no velório e no enterro.

Antônio detestava os ritos fúnebres. O caixão, as coroas de flores desbotadas, as roupas pretas vestindo corpos de almas destroçadas. Odiava ainda mais o enterro, a descida às entranhas da terra de pessoas que independente do que tinham feito em vida, naquele momento estariam sete palmos abaixo dos pés daqueles que permaneciam esperando a visita da "indesejada das gentes".
Havia treze anos que o homem de quarenta não se comunicava com o pai. Durante esse período, terminou a faculdade, casou-se com Marisa, violinista da Orquestra Sinfônica de São Paulo, e teve dois filhos: Lívia, de onze anos, e Rodrigo, com oito. Foi também nesse espaço de tempo que Toninho, como era chamado Antônio pelos colegas de escola, tornou-se, numa carreira meteórica, um dos pianistas mais aclamados do país.

Seu pai, também Antônio, era um simples agricultor, mas tendo aguçada visão de mundo destinava praticamente toda a renda mensal para financiar o estudo dos dois filhos. Queria que fossem doutores, "gente estudada", ele dizia. Quando fez dezoito anos, Antônio filho colocou no bolso o dinheiro que o pai havia economizado para a ocasião e foi à capital fazer sua inscrição no vestibular. Qual não foi a surpresa paterna quando Toninho, aluno aplicadíssimo desde pequeno, resolveu cursar música.
-Como assim música!? Onde você estava com a cabeça, seu jumento!? - gritava Antônio pai, inconformado - Trabalhei de Sol a Sol para você resolver cursar música, seu verme!?
-Mas, pai, é disso que eu gosto - dizia num murmúrio Antônio filho -Quero tocar músicas como as que eu escuto no rádio, quero viver para a música!
- Então vá embora dessa casa, porque aqui não tem espaço para músico vagabundo! - bradou Antônio pai num rompante de fúria.
E lá se foi Antônio filho. Não adiantou choro da mãe, chantagem emocional da irmã, conversa com o padre. Antônio filho foi viver para música e, com o talento nato que possuía, passou a viver da música.

Os anos o distanciaram do seu velho. O orgulho impedia-os de retomar o contato e a situação passou a ser cômoda para os dois. Cada qual em seu casulo, pai e filho, apesar de se amarem, passaram a aceitar a deterioração de sua relação como irreversível e mesmo se encontrando nas raras reuniões familiares, a cumplicidade que havia transformou-se em um polido "boa noite".

Antônio pai nunca admitiu, mas todos os dias ouvia as músicas compostas e tocadas por seu filho nos CDs que guardava como tesouros e orgulhava-se de ter posto no mundo um ser capaz de aliviar o peso da existência como aquele. Antônio filho preferia esconder, mas sentia falta daquele jeito do seu pai em falar "Ó mundo velho sem porteira..." quando sentia-se escandalizado com algum novo fato.

-Ó, mundo velho sem porteira! - finalmente respondeu Antônio do outro lado da linha - Vera, estarei lá e tocarei para papai como eu sempre quis fazer.

E chorou como nunca havia chorado antes ao lembrar que mais tarde haveria de encontrar coroas de flores desbotadas e vestes negras no velório. Do seu pai.

domingo, 3 de agosto de 2008

I love human being


Poucas coisas me irritaram mais nos últimos tempos que ouvir um professor dizer que a solução para a humanidade seria o suicídio coletivo e, usando citações de Russeau, afirmar que o homem é um verme habitando um planeta de lama. Discordo. Discordo de Russeau e do primeiro que, pela função que exerce, deveria ser um grande entusiasta da capacidade humana de evolução. Discordo dos que pensam que o ser humano é triste, patético, maldoso e previsivelmente egoísta. Eu amo o homem e não nego a ninguém minha preferência absoluta por esse ser vivo. Somos a máquina perfeita, a criatura mágica. Já dizia a Bíblia que Deus nos fez sua imagem e semelhança. Se esse Deus existe, nunca saberemos. Mas para ser semelhante ao homem, ele deve ser de fato uma faculdade especial.

Nada mais belo que a capacidade humana de adaptar-se, sensibilizar-se, criar, errar e aprender. O erro, aliás, é o que mais me encanta no bicho homem. Não o erro em si, mas a consciência que advém dele, fazendo-nos acreditar que as coisas poderiam ser diferentes. Daí posso introduzir à minha lista de celebração outro fator magnífico do homem - e o primordial deles - denominado razão, pela qual somos capazes de entender o mundo à nossa volta, curar doenças e cometer atrocidades em busca de lucro e poder.

Não estou aqui para negar os defeitos humanos, a ambição insaciável, a maldade presente em muitos de nossa espécies e as barbáries impensáveis que o ser humano já foi capaz de realizar. Não estou aqui para negar a existência de fascistas, nazistas, socialistas e capitalistas vorazes por poder, riquezas e sem nenhum respeito para com os demais. Apesar de tudo isso, não deixo de achar lindo olhar nos olhos de outra pessoa e sentir a capacidade que temos de guardar na memória experiências, interpretar atos e ser uma colcha de retalhos daquilo que fizemos e vivemos.

Estudos sociológicos afirmam que o que nos difere dos demais animais é a consciência a respeito da morte. O mais incrível é que, diferente de todos os seres vivos, podemos deixar marcas no mundo - boas e ruins - e nos tornar imortais, mesmo com a mortalidade.

É por essas e por outras que...I LOVE HUMAN BEING.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Os Capitães da Areia no país do carnaval


Na última semana estive por cinco dias na capital da Bahia, Salvador, e por um momento me vi de volta à 1930, época que serve de pano de fundo para o eterno romance Capitães da Areia, de Jorge Amado. Nesta obra, o escritor baiano -cuja casa tive a honra de visitar- narra a história dos capitães da areia, nome dado a um grupo de meninos de rua de Salvador que assombravam a cidade ocupando-se de furtos e outros pequenos delitos. De repente, subindo a ladeira do pelourinho ou mesmo visitando a Igreja do Bonfim, me vi cercada por capitães da areia. Estes não cometeram furtos, não encheram de medo os olhos dos turistas (já assustados pela forte insistência com que os vendedores ambulantes os abordavam), mas deixaram-me a impressão de que a obra de Jorge Amado é mais contemporânea que qualquer outra do século passado que eu tenha lido. Mesmo após 71 anos, os capitães da areia, eternizados por Jorge, continuam a existir. Impressionante fazer essa constatação, afinal, o homem chegou à Lua em 1969, o avião supersônico foi criado em 1960 e em 2006 o Brasil tornou-se auto-suficiente em petróleo. Mesmo em meio a essas tranformações, avanços e sorrisos brancos de progresso ainda existem meninos sem nome, sem pai, sem mãe, sem comida, sem registro de nascimento, sem rosto e sem existência. Mas esqueçamos aqueles que choram, não é mesmo? Esqueçamos os que tremem de frio e fome! Estamos na terra do carnaval, da festa, da gandaia! Fechemos os olhos para aqueles que vivem à margem, para os que têm que furtar para sobreviver, para os que sequer sabem que o homem chegou àquele ponto luminoso no céu que tantas vezes fora a única luz em meio à escuridão da noite, da miséria e da desesperança.

terça-feira, 10 de junho de 2008

A Primeira Concha


Primeiro veio a vontade súbita de comunicar, interagir e reagir. Em seguida, a idéia de fazer uso da internet para fins mais interessantes que orkut, fotolog e youtube (não que este último não me tenha feito, muitas vezes, ampliar horizontes). O fato é que após ler a entrevista interessantíssima com o psicanalista cidadão-do-mundo Contarde Calligaris exposta na revista Marie Claire, achei que chegara a hora de ganhar o globo. Já que a grana é curta, a coragem é pouca e a menoridade não permite, a internet mostrou-se como um meio de fazer chegar a um alcance maior que minha sala de aula e os ouvidos de minha família e amigos um pouco de minha sopa de idéias e sombras de meus pensamentos. Neste espaço correrão soltas frases de alguém que, como todos e cada um, busca a liberdade inata - muitas vezes inexistente- de expressar-se. Desvencilhar pensamentos e palavras dos grilhões do comodismo e da imobilidade talvez sejam o maior desafio do homem. Ser é ver, falar e tranformar, não em seus sentidos literais, mas na abrangência mais ampla de seus conceitos. Que Pipas, de Portinari, deixe-nos a imagem de que senão livres, ao menos belos.