quarta-feira, 2 de julho de 2008

Os Capitães da Areia no país do carnaval


Na última semana estive por cinco dias na capital da Bahia, Salvador, e por um momento me vi de volta à 1930, época que serve de pano de fundo para o eterno romance Capitães da Areia, de Jorge Amado. Nesta obra, o escritor baiano -cuja casa tive a honra de visitar- narra a história dos capitães da areia, nome dado a um grupo de meninos de rua de Salvador que assombravam a cidade ocupando-se de furtos e outros pequenos delitos. De repente, subindo a ladeira do pelourinho ou mesmo visitando a Igreja do Bonfim, me vi cercada por capitães da areia. Estes não cometeram furtos, não encheram de medo os olhos dos turistas (já assustados pela forte insistência com que os vendedores ambulantes os abordavam), mas deixaram-me a impressão de que a obra de Jorge Amado é mais contemporânea que qualquer outra do século passado que eu tenha lido. Mesmo após 71 anos, os capitães da areia, eternizados por Jorge, continuam a existir. Impressionante fazer essa constatação, afinal, o homem chegou à Lua em 1969, o avião supersônico foi criado em 1960 e em 2006 o Brasil tornou-se auto-suficiente em petróleo. Mesmo em meio a essas tranformações, avanços e sorrisos brancos de progresso ainda existem meninos sem nome, sem pai, sem mãe, sem comida, sem registro de nascimento, sem rosto e sem existência. Mas esqueçamos aqueles que choram, não é mesmo? Esqueçamos os que tremem de frio e fome! Estamos na terra do carnaval, da festa, da gandaia! Fechemos os olhos para aqueles que vivem à margem, para os que têm que furtar para sobreviver, para os que sequer sabem que o homem chegou àquele ponto luminoso no céu que tantas vezes fora a única luz em meio à escuridão da noite, da miséria e da desesperança.