quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Embaixo do nosso nariz

Indigente - Foto tirada na cidade de Salvador, Bahia, pela blogueira que vos fala

Iniciaram segunda-feira, 25/08, as inscrições para a SOI -Simulação das Organizações Internacionais- que este ano destinou como comitê para os alunos do ensino médio a OMS (Organização Mundial da Saúde), tratando do tema "AIDS: combate e prevenção".

Como no ano passado, fiz rapidamente minha inscrição para o evento e aguardo ansiosamente seu início. O que me veio à mente esses dias, no entanto, foi um questionamento a respeito da aplicabilidade prática daquilo que discutimos não apenas na SOI, mas em nossas salas de aula, na internet e em outros meios que permitem a livre circulação idéias e conhecimento. Não que sejam inválidas discussões a respeito da AIDS ou do conflito árabe-israelense, por exemplo. Pelo contrário: é debatendo que se formam opiniões e com as relações internacionais a todo vapor, os problemas da pandemia a AIDS ou do impasse palestino também são preocupações nossas.

Assusta-me, todavia, que tanta energia e tempo sejam desperdiçados na busca por soluções para problemas tão distantes da nossa realidade, quando, na verdade, grandes dilemas sociais estão presentes pertinho de nós, em nosso país, em nosso Estado, em nossa cidade.

Será que não seria melhor encontrar a solução para a superlotação no presídio de Alcaçuz antes de lutar por inalcançáveis resoluções a respeito do terrorismo no Oriente Médio? Não seria mais eficaz tentar resolver o problema da corrupção em nossa câmara de vereadores no lugar de buscar o fim do desvio das verbas para a saúde nos países africanos? Imaginem se durante quatro dias os jovens discutissem a elaboração de um documento que, em vez de uma fantasia, fosse real e dirigido a nossas autoridades.

É inquestionável a importância da SOI para os estudantes do ensino médio e universitários interessados em relações exteriores e direito internacional. E é dificílimo ver alguém que, participando uma vez, não sinta vontade de participar novamente. Esse evento, aliás, realiza tudo ao qual ele se propõe: uma simulação das organizações internacionais.

O que não dá para negar é que existem feridas sociais muito graves na esquina de nossa rua e que a cura para elas, que só poderá vir com a participação da sociedade em geral, especialmente do jovem, parece estar longe de ser encontrada e, o pior de tudo, de ser discutida, estudada.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

É isso aí

A decepção de Marta após a derrota na partida que renderia o ouro olímpico.
(Foto retirada do site estadao.com, por Roberto Candia/AP)

Não entendo muito de futebol. Aliás, não sou uma especialista nos esportes, seja qual for a categoria. Entretanto, se houve coisas que me chamaram a atenção no jogo da seleção feminina nesta manhã de quinta-feira foram a disposição e o amor à camisa que nossas meninas demonstraram em campo. Nada parecido com a partida vergonhosa da seleção masculina, que se acovardou e levou uma goleada da Argentina, nossa rival histórica, sem ser capaz de mostrar por que dizem que o Brasil tem o melhor futebol do mundo.

Diferentemente da equipe masculina, a seleção feminina não é composta por milionários, reconhecidos mundialmente. As mulheres do futebol brasileiro, apesar de terem vencido enormes barreiras, ainda possuem um espaço periférico no esporte nacional e a muito custo alcançam os patrocínios necessários a suas participações em competições mundiais, nas quais sempre são destaque.

Guerreiras em campo e na vida real, as meninas do nosso futebol mostraram o que é lutar até o último minuto em busca de um sonho. A maioria delas, oriundas das classes sociais desprivilegiadas, só conquistaram o lugar na seleção por terem sido em suas vidas aquilo que foram neste jogo: determinadas e perseverantes. Que Marta, Cristiane e outros talentos dessa equipe sejam para nós exemplos, sempre.

E se por algum momento o clichê "é mais importante competir" vigorou nas Olimpíadas de Beijing, esse momento foi hoje. Ver nossa seleção feminina de futebol competir nos trouxe orgulho e, mesmo o ouro não vindo, ficou a honra ver mulheres lutando tão bravamente por nossa camisa verde e amarela em um esporte predominantemente masculino.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A casa na árvore

Árvores no jardim Asylum - Van Gogh
Eu tinha nove anos quando vovó resolveu dar-me de presente uma casa na árvore. O local escolhido para ser base da minha fantasia era o mais imponente cajueiro da granja dos meus avós, com galhos fortes e extensos, nos quais eu passava tardes inteiras fingindo estar nos bosques do Sítio do Pica-pau Amarelo, brincando com Emília e tendo conversas amigáveis com Visconde de Sabugosa.

Lembro-me bem que a construção da casinha durou dois meses (para mim, uma eternidade) e que minhas expectativas foram em muito superadas pelo primor com que meus avós construíram a materialização dos meus sonhos infantis: a casa era rosa, possuía escada, sala, cozinha e duas janelas cobertas por cortinas amarelas decoradas por lacinhos vermelhos.

Eis que a casa na árvore marcou o apogeu e fim da minha infantilidade. Era um dia quente de dezembro quando subi no local que há muito já me era familiar e na cortina da cozinha lá estava a responsável pelos meus pesadelos de meses depois: uma aranha caranguejeira enorme, peluda, balançando as patinhas e se deslocando lentamente pelo tecido, como se nela houvesse prazer em me apavorar. Tamanho foi o medo que até voz para gritar me faltou e, não sei bem como, rolei escada abaixo. A minha última lembrança daquele dia foi ter observado do chão, com o tornozelo torcido e a boca cheia de areia, a imagem da minha casinha, tomada por assalto pela aranha que até hoje me vem na memória quando sofro algum fracasso.

Não voltei a subir na casa e, após o fato, nunca mais brinquei com as demais crianças com a empolgação habitual. A casa na árvore e a aranha foram os divisores de água entre minha infância e puberdade. Foi a partir daquele dia que percebi o quanto frustração e covardia podem permear alguns momentos de nossas vidas e que mesmo quando tudo parece bem, somos falíveis e sujeitos a perdas.

Mas continuo sentindo gosto de infância e cheiro de cajú quando lembro da minha linda casa na árvore.

sábado, 9 de agosto de 2008

Mundo velho sem porteira

Meninos soltando pipas - Portinari

Eram oito e quinze de uma melancólica manhã de domingo quando o telefone tocou na casa de Antônio, quebrando o silêncio tão habitual naquele dia da semana.
-Pai, tia Vera quer falar com você - disse seu filho mais novo, Rodrigo, que após atender ao telefone deixa-o ao lado do gancho e sai para jogar futebol com seus vizinhos do condomínio luxuoso onde moravam.
-Alô? Oi, Vera - atende Antônio com displicência.
-Antônio, o papai morreu - diz a mulher ao telefone, mal podendo conter o choro - Foi infarto fulminante; quando mamãe percebeu ele já não respirava mais - prosseguiu ela, enquanto o seu irmão, no outro lado da linha, não esboçava nenhuma reação - É muito importante sua presença no velório e no enterro.

Antônio detestava os ritos fúnebres. O caixão, as coroas de flores desbotadas, as roupas pretas vestindo corpos de almas destroçadas. Odiava ainda mais o enterro, a descida às entranhas da terra de pessoas que independente do que tinham feito em vida, naquele momento estariam sete palmos abaixo dos pés daqueles que permaneciam esperando a visita da "indesejada das gentes".
Havia treze anos que o homem de quarenta não se comunicava com o pai. Durante esse período, terminou a faculdade, casou-se com Marisa, violinista da Orquestra Sinfônica de São Paulo, e teve dois filhos: Lívia, de onze anos, e Rodrigo, com oito. Foi também nesse espaço de tempo que Toninho, como era chamado Antônio pelos colegas de escola, tornou-se, numa carreira meteórica, um dos pianistas mais aclamados do país.

Seu pai, também Antônio, era um simples agricultor, mas tendo aguçada visão de mundo destinava praticamente toda a renda mensal para financiar o estudo dos dois filhos. Queria que fossem doutores, "gente estudada", ele dizia. Quando fez dezoito anos, Antônio filho colocou no bolso o dinheiro que o pai havia economizado para a ocasião e foi à capital fazer sua inscrição no vestibular. Qual não foi a surpresa paterna quando Toninho, aluno aplicadíssimo desde pequeno, resolveu cursar música.
-Como assim música!? Onde você estava com a cabeça, seu jumento!? - gritava Antônio pai, inconformado - Trabalhei de Sol a Sol para você resolver cursar música, seu verme!?
-Mas, pai, é disso que eu gosto - dizia num murmúrio Antônio filho -Quero tocar músicas como as que eu escuto no rádio, quero viver para a música!
- Então vá embora dessa casa, porque aqui não tem espaço para músico vagabundo! - bradou Antônio pai num rompante de fúria.
E lá se foi Antônio filho. Não adiantou choro da mãe, chantagem emocional da irmã, conversa com o padre. Antônio filho foi viver para música e, com o talento nato que possuía, passou a viver da música.

Os anos o distanciaram do seu velho. O orgulho impedia-os de retomar o contato e a situação passou a ser cômoda para os dois. Cada qual em seu casulo, pai e filho, apesar de se amarem, passaram a aceitar a deterioração de sua relação como irreversível e mesmo se encontrando nas raras reuniões familiares, a cumplicidade que havia transformou-se em um polido "boa noite".

Antônio pai nunca admitiu, mas todos os dias ouvia as músicas compostas e tocadas por seu filho nos CDs que guardava como tesouros e orgulhava-se de ter posto no mundo um ser capaz de aliviar o peso da existência como aquele. Antônio filho preferia esconder, mas sentia falta daquele jeito do seu pai em falar "Ó mundo velho sem porteira..." quando sentia-se escandalizado com algum novo fato.

-Ó, mundo velho sem porteira! - finalmente respondeu Antônio do outro lado da linha - Vera, estarei lá e tocarei para papai como eu sempre quis fazer.

E chorou como nunca havia chorado antes ao lembrar que mais tarde haveria de encontrar coroas de flores desbotadas e vestes negras no velório. Do seu pai.

domingo, 3 de agosto de 2008

I love human being


Poucas coisas me irritaram mais nos últimos tempos que ouvir um professor dizer que a solução para a humanidade seria o suicídio coletivo e, usando citações de Russeau, afirmar que o homem é um verme habitando um planeta de lama. Discordo. Discordo de Russeau e do primeiro que, pela função que exerce, deveria ser um grande entusiasta da capacidade humana de evolução. Discordo dos que pensam que o ser humano é triste, patético, maldoso e previsivelmente egoísta. Eu amo o homem e não nego a ninguém minha preferência absoluta por esse ser vivo. Somos a máquina perfeita, a criatura mágica. Já dizia a Bíblia que Deus nos fez sua imagem e semelhança. Se esse Deus existe, nunca saberemos. Mas para ser semelhante ao homem, ele deve ser de fato uma faculdade especial.

Nada mais belo que a capacidade humana de adaptar-se, sensibilizar-se, criar, errar e aprender. O erro, aliás, é o que mais me encanta no bicho homem. Não o erro em si, mas a consciência que advém dele, fazendo-nos acreditar que as coisas poderiam ser diferentes. Daí posso introduzir à minha lista de celebração outro fator magnífico do homem - e o primordial deles - denominado razão, pela qual somos capazes de entender o mundo à nossa volta, curar doenças e cometer atrocidades em busca de lucro e poder.

Não estou aqui para negar os defeitos humanos, a ambição insaciável, a maldade presente em muitos de nossa espécies e as barbáries impensáveis que o ser humano já foi capaz de realizar. Não estou aqui para negar a existência de fascistas, nazistas, socialistas e capitalistas vorazes por poder, riquezas e sem nenhum respeito para com os demais. Apesar de tudo isso, não deixo de achar lindo olhar nos olhos de outra pessoa e sentir a capacidade que temos de guardar na memória experiências, interpretar atos e ser uma colcha de retalhos daquilo que fizemos e vivemos.

Estudos sociológicos afirmam que o que nos difere dos demais animais é a consciência a respeito da morte. O mais incrível é que, diferente de todos os seres vivos, podemos deixar marcas no mundo - boas e ruins - e nos tornar imortais, mesmo com a mortalidade.

É por essas e por outras que...I LOVE HUMAN BEING.