domingo, 21 de setembro de 2008

Um brinde! - Parte I


Como em todos os anos de sua vida, Augusto Puce não deixara de preparar, para a celebração dos seus 86 anos, uma grande festa. As melhores bebidas e comidas eram servidas em bandejas ornamentadas com frutas e flores exóticas. A iluminação trazia uma aura especial para o momento, que reunia nos salões da mansão do magnata grandes personalidades e amigos de longas datas, todos vestidos de glamour e riqueza. A música refinada e a profusão de cores e rosas que compunham a decoração completavam o fascínio da cena. Tudo estava em perfeito acordo com o requintado gosto do octagenário.

Do alto da escada em espiral que mandara construir trinta anos antes, Augusto contemplava aqueles rostos familiares que sorriam e dançavam ao som de Non, je ne regrette rien*. Seus exuberantes e perspicazes, mesmo que envelhecidos, olhos verdes admiravam a festa freqüentada por mulheres lindas e homens elegantes. Sim, ele se acostumara a viver nesse mundo perfumado e luminoso e não escolheria vida diferente se tivesse de nascer novamente. A coleção de quadros que preenchia as paredes de toda a residência, as maçanetas douradas e minimalistas... Todas aquelas coisas estavam gravadas na memória de Augusto e tinham para ele um grande valor sentimental.

A noite estaria completa se, dentre tanta gente, não faltasse alguém. "Onde está você?", perguntava-se o velho, com agonia. As suas divagações, no entanto, não se estenderam por muito tempo. Seus pensamentos foram interrompidos quando seu sobrinho ordenou e a paralisação da música. Fez-se um silêncio mágico. Tomando o microfone, o rapaz anunciou:
-Senhoras e senhoras, eu vos anuncio a presença daquele que é a razão desta celebração e o motivo pelo qual estamos aqui hoje. Uma salva de palmas para meu querido tio e amigo, o grande Augusto Puce!

As palmas e aclamações encheram o recinto. O velho Puce, amparado por uma bengala, mas sem perder o charme e a altivez inerentes a ele, desce a escada e cumprimenta com seu sorriso hipnótico os convidados, eufóricos com a presença do homem.

(Continua...)
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Inicia-se com esta postagem o conto "Um brinde!", cuja continuidade será dada nos posts que se seguirão. Espero que se divirtam!
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*Música composta por Michel Vaucaire e Charles Dumont, eternizada pela voz da francesa Edith Piaf. Para ouvi-la, acesse: http://www.youtube.com/watch?v=kFRuLFR91e4 . Para ver sua tradução: http://http//vagalume.uol.com.br/cassia-eller/non-je-ne-regrette-rien-(traduzida).html .

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Pequena história urbana

"Creio que ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam"
Aquarela e frase retiradas do livro 'Le petit prince" ("O pequeno príncipe"), por Saint Exupéry
Deixou o monumental edifício empresarial onde trabalhava e iniciou sua caminhada, de pasta e paletó na mão, sem destino certo. Passou a vida correndo de um lado para outro, mas nunca soube exatamente o que buscava. Desde muito pequeno fora lapidado para ser o melhor e agora, tendo conquistado o tão almejado sucesso profissional, não se sentia pleno. Descobrira há poucos instantes que sempre sonhou os sonhos alheios, sem nunca ter parado para pensar se o rumo que dava à sua existência era de fato aquele que queria trilhar.

Gostaria de se livrar daquela gravata que o apertava. Queria jogar fora a pasta que tinha de carregar para todos os lugares e percebeu que odiava usar paletó, o qual lhe trazia um calor insuportável.

E foi assim, pensando em tudo e ao mesmo tempo em nada, que arrancou a gravata, jogou no chão o paletó e a pasta e se pôs a correr, indiferente aos olhares das pessoas civilizadas que o observavam com olhos de repreensão e espanto. Não ouvia os gritos dos transeuntes cada vez que esbarrava em um deles. Não via os carros quando atravessava as largas avenidas, provocando buzinas e xingamentos dos já muito estressados motoristas. Corria, apenas. Sentia sua respiração ofegante e isto lhe bastava.

Parou de frente para o mar e reparou que nunca o havia contemplado com tanta intensidade. Como era lindo! Sentou-se na areia, passou as mão nos cabelos iluminados pelos últimos raios de Sol. A vida era bela, pois sim. Afinal, seria sempre possível afrouxar o nó da gravata, largar pasta e paletó na calçada e correr até cansar.