terça-feira, 14 de outubro de 2008

Um brinde! - Quarta e última parte.

Finalmente o conto recebe um desfecho. A intenção não era de que esta última parte ficasse longa demais; se ficou, desculpem-me :)
Beijo,
Ana Luiza.
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Ofereceu a Augusto o braço para que juntos caminhassem pelo salão. Chegaram ao jardim de árvores podadas e sentaram-se num banco defronte a uma fonte. Ouviam, dali, apenas rumores da grande festa. A mulher lançou um olhar oblíquo para Augusto.

- E então? Não proferiu palavra desde que nos reencontramos. Creio até que não te lembras mais de mim...
- Impossível esquecê-la. Naquela tarde não aconteceu nada extraordinário, mas você simplesmente deixou marcas inesquecíveis.
- Muitos já me falaram do meu poder de fascínio...
- Quem é você, afinal?
- Logo saberás. Antes, conte-me como viveu. O que amou e pelo o que lutou. Sessenta anos passam rápido, apesar de constituírem muito tempo.
- Amei a vida, em primeiro lugar. Vivi-a intensamente. Amei o império farmacêutico que construí, amei a casa na qual morei, amei as artes. Apaixonei-me por muitas mulheres.
- Amou alguma?
- Não, nunca. O meu egocentrismo não me permitiu amar a nenhuma delas verdadeiramente. Mas amei um pouco cada uma... E se de gota em gota faz-se o oceano, creio que amei demais! -confidenciou Augusto entre risos.
- É o que dizem... - sentenciou a mulher, não muito convencida. - E sua luta para reconstruir a indústria de sua família valeu a pena? Você salvou muitas vidas?
- Minha cara, para quê tantas perguntas logo a um velho como eu? Na idade em que estou essas meditações só devem ser feitas num leito de hospital, pouco antes do suspiro final. Caso contrário, o ser que medita sobre as questões que você me fez corre o risco de fechar-se em si, mesmo quando, aos oitenta e seis anos, a alma precisar ser uma janela escancarada para o mundo. Mas já que você insiste, respondo: minha luta valeu. Não digo isto pelo espírito altruísta que se supõe num homem cuja vida foi desenvolver remédios para que os outros vivessem também. A luta valeu a pena porque me permitiu conquistar tudo o que sempre sonhei: sucesso, poder, amigos interessantes, dinheiro para colecionar obras de arte e realizar festas como esta. Quanto à saúde que levei a muita gente, sinto-me lisonjeado por ela, mas, para ser sincero, o bem-estar das pessoas foi conseqüência natural da minha jornada e não o objetivo dela.
- Ora, ora... Não esperava toda essa franqueza vinda de você, Augusto Puce. Sugeriria que você fizesse um discurso menos sincero da próxima vez, se ela ainda fosse possível – disse ela, ironicamente. - De qualquer forma, saiba que você fez um grande favor a mim todo esse tempo. Sua indústria retardou meu trabalho, poupou-me de esforços sem sentido.
- Desculpe-me, mas volto à pergunta: quem é você?
- Não sabes ainda, Augusto? Sou a Morte, homem. Salvei você uma vez, pois sabia que seu destino era aliviar um pouco o peso da minha responsabilidade: já bastavam os sem-vida com os quais eu devia arcar e ainda vinham as epidemias e as doenças incontroláveis que me obrigavam a transportar até aqueles que deviam permanecer um pouco mais.
-Logo vi que você não pertencia a este mundo... É por ser a Morte que você não envelheceu, não é? Mantém-se com mesma face de mistério daquela tarde de outono. – concluiu ele, atônito. - Então quer dizer que passei a vida lutando contra você? – perguntou por fim.
- Lutando contra mim? Não, de forma alguma... Na verdade, não gosto muito do papel que desempenho, mas como não há escolha, o faço. Ás vezes, eu preciso do apoio de pessoas como você.
- E cumprida minha missão, veio me levar? – perguntou Augusto, sombrio, mas firme
-Vim, meu querido. A hora chegou. Mas não se preocupe: serei doce. – E aproximou-se do homem, acariciando seus cabelos brancos como uma mãe nina seus filhos, enquanto lindos fogos de artifícios iluminavam a noite.

No outro dia, os jornais noticiaram a morte natural de Augusto Puce, encontrado morto e sorrindo sobre um banco do seu jardim, durante a festa de seu octogésimo sexto aniversário. Por todo o mundo, a notícia se espalhou com o seguinte subtítulo: “Morre Augusto Puce, homem cuja maior paixão foi salvar vidas.”

Um brinde! - Parte III

Galáxia de esferas - Salvador Dalí.

- Não, você não quer morrer... - disse aquela figura diferente. Tinhas olhos negros e os cabelos idem, lisos e escorrendo pelos ombros. Era frágil e muito alva.
- Vamos, deixe-me ver essa carta -Replicou ela, tomando das mãos de Augusto o papel ligeiramente amassado. - Olhe só isto... Todo esse melodrama! Já vi cartas de suicídio melhores que esta. E sua pretensão era enfiá-la nessa garrafa? - disse-lhe, apontando para a garaffa de conhaque aos pés de Augusto - Muito clichê! - Concluiu, rindo.
-Quem é você para julgar a minha carta? E como sabia que eu quero morrer? - perguntou Augusto, ainda tonto.
- E preciso saber de alguma coisa? Basta ver seu rosto, Augusto...
- Como sabe meu nome?
- Estava assinado em sua carta.
- Ah, é mesmo...
- Mas essa história de morrer não procede, moço. Tão jovem, com um futuro tão brilhante. Idependente do que tenha acontecido, você reconstruirá tudo rapidamente, tenho certeza.
- Como pode ter essa certeza? Sou um fracasso. Foi por causa da minha estupidez que todo o esforço de gerações se perdeu.
- Mas você recuperará tudo e será ainda maior que seus antepassados... Verei seu nome estampado em jornais e revistas em anos.
- Falar é fácil... Como vou fazer para reconquistar as coisas que perdi?
- Pense, homem. Será que você não tem nenhum dinheiro aplicado na bolsa? Digo isso porque já vi que seu problema é financeiro... Resgate o dinheiro e recupere sua empresa, simples.
- Eu não tinha pensado assim.
- É exatamente por isso que estou aqui e é também por essa razão que você estava pensando em tamanha tolice; não que a Morte seja tolice, não se trata disto... Mas às vezes não é o momento dela. Entretanto, preste atenção: você deverá recuperar, além dos bens materiais, sua vida espiritual, suas virtudes. Não se esqueça disso.- Farei isso, muito obrigado pela ajuda - disse-lhe Augusto, tomando as mãos da moça e dando nelas beijos atrapalhados- Nunca poderei lhe pagar pela ajuda que você me deu.
- Ah, não se preocupe - respondeu ela, rindo pelo gesto desajeitado do rapaz - Sua dívida será quitada pelo seu sucesso. Daqui a sessenta anos te procurarei para o nosso acerto de contas.

Levantou-se, sacudiu do vestido a areia e sumiu. Augusto não tornou a vê-la e tampouco procurou saber seu nome, atordoado que estava. Pensou, por muito tempo, que a moça era fruto de sua embriaguez. Delírio ou não, o futuro vislumbrado por ela se concretizou. Em poucos anos Augusto retomou o patrimônio da família e tornou-se famoso mundialmente pela Puce e Cia. Indústria Farmacêutica. Até Olívia o buscou novamente, mas ele não a aceitou de volta, assim como nunca enxergou como único e definitivo nenhum de seus demais romances. Comprometera-se com a lembrança daquela tarde de outono.

Mas a moça da praia existia e lá estava ela, caminhando na direção de Puce, alheia, também, às pessoas aos seu redor, que pareciam não notá-la.

Chegando a Augusto, sorriu:
- Vim receber meu pagamento.

(Continua...)
-x-

Para ser sincera, minha vontade é de publicar aqui outra coisa que não esse conto. Mas já que não há outro remédio para evitar uma quebra de seqüência, o jeito é tomá-lo de uma vez, sem interromper os goles. O fim vem rápido, prometo. Só mais uma parte.

Beijo,
Ana Lú.

domingo, 12 de outubro de 2008

Um brinde! - Parte II


A multidão abre-se para permitir a passagem do velho. "Obrigado, muito obrigado" era o que ele balbuciava para os que o envolviam.

Augusto toma o microfone e, mais uma vez, faz-se o silêncio, este muito mais envolto em expectativa que o primeiro.

-Meus amados amigos e amigas, nada me dá maior felicidade que o sorriso de vocês esta noite. Comemoramos, hoje, não apenas meu aniversário - que, diga-se de passagem, não seria digno de tamanha festa. Estamos celebrando, sim, os sessenta anos da maior indústria farmacêutica da atualidade, responsável por salvar inúmeras vidas e por proporcionar a doentes do mundo inteiro um pouco mais de alegria. O brinde que proponho, então, é para a Puce e Cia, sonho idealizado e concretizado por mim quando meus cabelos não eram tão brancos... Vamos, brindemos todos! - finaliza Augusto, levantando sua taça.

E a sincronia com que todos acompanharam seus gestos e beberam do seu champagne fez brilhar os olhos do magnata dos remédios. "Graças a Deus nunca precisei das drogas que fabrico", costumava dizer Puce, vangloriando-se de sua saúde de ferro, apesar da vida regada a fumo e álcool.

De repente Augusto estancou. As pessoas ao redor, as risadas e a música... Tornara-se cego e surdo para tudo. Via apenas ela. Cumprira o prometido, afinal. Aguardava-a há algum tempo e já havia passado noites em claro imaginando como seria o reencontro. Não havia mudado desde a primeira vez que a viu, sessenta anos antes. A mesma postura ressabiada, a tez pálida, os cabelos negros descendo pelos ombros. Sim, ela veio. Agora, o que restava-lhe?

Era uma tarde de outono em 1948. O céu nublado, a brisa fria... Tudo parecia cinza naquele dia. Depois da segunda garrafa de conhaque, Augusto decidira se perder na imensidão azul do mar para nunca mais ser encontrado. Olívia, sua noiva, o havia abandonado depois que a empresa farmacêutica deixada por Frederico Puce- que nunca confiou no talento administrativo do filho, ocupado demais em festas e romances - faliu. Sem dinheiro, sem amor, Augusto resolveu que a vida não valia mais a pena. "Coisas de um jovem romântico sem muito juízo...", dizia ele, recordando o fato para a legião de ouvintes que não cansava da história. Já começara a enfiar numa garrafa a carta de suicídio, na qual perdia perdão ao mundo por ter um dia o habitado, quando ao seu lado, na areia, sentou-se a criatura mais linda que ele já tinha visto.

(Continua...)
-x-

Antes de tudo, peço desculpas pela demora em continuar o conto (é que a cabeça e a rotina andavam meio bagunçadas) e asseguro que não será assim daqui pra frente: a continuação virá ainda essa semana.

Beijos e boa leitura,

Aninha.