segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Do acúmulo (ir)refletido



"Os seres humanos são dotados de uma natureza espiritual tal que não deveriam apenas possuir bens materiais, mas deveriam antes possuir sustento espiritual. Sem o sustento espiritual fica difícil adquirir e manter a paz de espírito"
Dalai Lama

De repente, ela viu que não havia sequer espaço para interrogações. Eram sapatos, bolsas, brincos, pulseiras e anéis perdidos no meio do esquecimento e da inutilidade. Nas prateleiras, os acessórios zombavam dela. Riam especialmente de seu olhar perdido no meio tanta informação e tão pouco conteúdo. Naquele dia, ela decidiu mudar. Separou uma caixa e, dentro dela, despejou a maior parte das peças que por anos acumulara sem perceber que não precisava de tudo aquilo.

Suando após o ritual de desprendimento terapêutico, pôs o que juntou dentro do carro e findou por doar tudo ao Armazém da Caridade. Sentiu-se bem, por fim. Daquele momento em diante pregaria o desapego aos bens materiais, afinal “o essencial é invisível aos olhos”, já dizia um escritor francês. Teve, então, uma idéia: faria uma viagem de quatro meses ao Tibete e buscaria apreender um pouco dos ensinamentos básicos budistas, tão bonitos que eram. Dirigiu até a agência de viagens, programou o roteiro espiritual, fechou negócio.

Na volta para casa, passou no shopping. Não dá para visitar o Tibete levando na mala (já velhinha, desgastada, talvez até seja preciso uma nova...) apenas as roupas que permaneceram no armário, não é mesmo?

Ah, o consumismo...

-x-
P.S.: Mesmo que se diga o contrário, shoppings lotados são bastante inspiradores.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O tempo e seus milagres



Ultimamente tenho vivido experiências e sensações que, por suas profundidades e particularidades, aparecem para mim com o imperativo de escrever sobre elas, mesmo que na maior parte dos casos eu lute por um distanciamento do que produzo por aqui.

O fato é que na noite da última sexta-feira, de repente, me vi em outra Natal. Por cerca de três horas, estive na Natal de Antônio Campos e Silva, de Astor, de Edgar, de Ciro e de tantos outros homens que, como os últimos três, se reencontravam após 50 anos de pouco ou nenhum contato. Esses senhores eram concluintes do científico - hoje segundo grau - do ano de 1958, no colégio Marista. No coquetel do reencontro da turma, pairava no ar um sentimento de alegria nostálgica irresistível. Eu estava ali representando meu falecido avô, que também pertenceu àquele grupo. Abraços calorosos, exclamações de espanto e risada s sonoras que eram ouvidas quando o apelido de infância de determinado colega vinha à tona ou quando algum fato engraçado era relembrado enchiam o recinto onde ocorria o evento.

Após cinqüenta anos, ali estavam indivíduos que compartilharam juntos o tempo no qual usavam calças curtas, jogavam bola e começavam a se aventurar pelos relacionamentos amorosos. Certamente estavam reunidas ali pessoas que, quando jovens, nutriram rancores adolescentes e aborrecimentos infundados entre si. Esses homens, sexta-feira, abraçavam-se como irmãos. De repente, um lampejo: quantos desgastes emocionais poderiam ser evitados se soubéssemos que, anos depois, aqueles acontecimentos que tanto nos preocupavam ganhariam uma dimensão mínima diante do turbilhão que é a vida e da maturidade que ganhamos com as experiências que o tempo nos oferece? Recordando mais uma vez Gabriel García Márquez, que tem uma infinidade de verdades bem-ditas (ou seriam benditas?) publicadas em seus livros, aqui se encaixa perfeitamente a frase: “A sabedoria só nos chega quando já não serve mais para nada...".

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A velhice nos tempos do cólera

O escritor colombiano Gabriel García Márquez - a velhice também chegou para ele


"Pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte"
(O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez)


Vi-a sentada defronte ao espelho, cheia de uma dignidade discreta. A mulher deveria ter mais de oitenta anos. Olhava o que os profissionais do salão de beleza faziam com seu pouco cabelo de forma disfarçadamente preocupada, como se à sua idade o incômodo demasiado com a aparência fosse bizarro. Seu corpinho era frágil, encurvado –“O tempo pesa”, pensei ter lido em sua postura – e seus reflexos eram notadamente lentos.

À primeira vista a cena pareceu-me triste: uma senhora idosa buscando resgatar sem sucesso uma beleza que se esvaiu quando começaram a aparecer em suas mãos as rugas e em sua cabeça os primeiros sinais de alzheimer. O quadro seria melancólico se eu não tivesse percebido em seu olhar envelhecido aquela chama de vaidade e auto-estima que se apodera das mulheres quando fazemos algo por nós mesmas.

A velhinha do salão lembrou-me uma experiência emocionante vivida por mim ano passado. Durante uma ação voluntária realizada em um abrigo para idosos no bairro de Mãe Luíza, eu e trinta amigos fizemos um bingo para os velhinhos ali presentes. Estive ao lado de uma senhora que, mal-humorada, recusou-se a participar da brincadeira e findou por ganhar de prêmio-consolação um chaveiro. Ela gostou do presente, mas insistia incessantemente para que eu retirasse do objeto a argola que deveria se unir às chaves. Relutei de início. Tentava explicar à mulher miudinha que, sem o aro, o chaveiro não teria serventia. Por fim, desisti de convencê-la e retirei a argola. Qual não foi minha surpresa quando a velhinha pegou o aro metálico e, colocando-o no dedo indicador, abriu-me um sorriso sem dentes e me disse de forma quase indecifrável: “Olha meu anel!”.

Uma sociedade que não valoriza seus idosos definitivamente não aprendeu por completo a lição de civilidade. Na velhice há, sim, beleza, amor próprio, vida. Gabriel García Márquez sabia tanto disto que escreveu em seu livro “O amor nos tempos do cólera” uma das mais belas reflexões sobre a vida que pulsa com vigor mesmo quando a juventude já partiu há muito tempo.

Em vez de correr desesperadamente contra a corrente dos anos, na recusa permanente de ver que o tempo pesa sobre todos, deveríamos nos empenhar em expandir qualidade de vida na velhice, reconhecendo que os idosos têm, tanto quanto os mais jovens, uma necessidade enorme de serem o que desejam ser.