sexta-feira, 27 de novembro de 2009

De volta!


Após seis meses de nenhuma atualização, este espaço volta a funcionar!

Durante esse período, o tempo e a cabeça estavam completamente consumidos por outros projetos. Por mais que inúmeros recortes do cotidiano me fizessem ter vontade de registrar algo por aqui, as idéias se perdiam no meio da ocupação. Enfim, para meu alívio, o blog volta a ter espaço nos meus dias. E com a falta gritante do que fazer, quem sabe os posts não se tornam menos escassos? Tentarei ser uma "blogueira" -é isso o que sou?- mais dedicada.

É muito bom estar de volta!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O vice-presidente e a lição da semana

José de Alencar: sorriso e sabedoria
Eu nunca havia reparado em José Alencar, nosso vice-presidente. Sequer havia me interessado por quem é ele ou qual a sua história pessoal. Entretanto, no último dia 13, suas palavras me surpreenderam.

Há 12 anos José de Alencar luta contra o câncer. Em Janeiro deste ano, o vice-presidente passou por uma cirurgia complexa, cuja duração foi de 18 horas, para a retirada de um tumor maligno no intestino. Neste momento, o vice-presidente não demonstrou nenhum sinal de fraqueza; ele encarou com coragem a doença. Na última quarta-feira, com a mesma serenidade demonstrada anteriormente, José de Alencar comentou o resultado de novos exames que comprovam existência de mais 18 focos do câncer em seu abdômen.

“A vida tem obstáculos. A gente tem que ter serenidade. Lutar sem desespero. Vou lutar para enfrentar a situação da melhor maneira possível. A minha vida, como a de todos, está nas mãos de Deus. Não adianta pensar diferente. A morte é um fenômeno da vida. Todos que nascem vão morrer um dia. Eu também. Quando, eu não sei”, disse José de Alencar, com serenidade estampada no rosto.

“Lutar sem desespero”. Essa frase marcou minha memória. Quantas vezes em nosso cotidiano nós nos entregamos a batalhas irracionais e nos desesperamos loucamente por banalidades? Desesperamo-nos pelo trabalho que deve ser entregue amanhã e ainda não está pronto, pelo atraso em determinado evento, pelo erro de alguém... O vice-presidente, por sua vez, luta pela vida (literalmente!), e não se desespera.

Menos pelo seu cargo, mais pela sua sabedoria. É assim que lembrarei de José de Alencar.
Belo exemplo!

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A mulher da cocada

Algumas cocadas nada parecidas com as vendidas pela mulher.


Há sete anos moro na mesma rua. Invariavelmente, por volta das onze da manhã, eu ouço a mulher dizer "Olha a cocada!", com sua voz grave que já não pode mais ser dissociada do calor da hora. Durante esses últimos anos, inúmeras coisas já aconteceram a mim e às pessoas ao meu redor. Nossas vidas já se transformaram incontáveis vezes e, a cada dia, novos sonhos surgem em nossas mentes, fazendo-nos traçar planos cada vez mais mirabolantes para nossos futuros.

Paralelamente ao nosso crescimento pessoal e profissional, ao ritmo frenético com que nossos dias passam, a mulher da cocada permanece com sua rotina indefectível de trabalho braçal sob o Sol. Provavelmente, a senhora robusta da qual eu falo nunca se questinou o por quê de sua vida inteira ter se baseado na venda das sobremesas de coco. Provavelmente, ela realiza sua atividade diária de forma mecânica e o "Olha a cocada!" sai de suas cordas vocais enquanto ela pensa na necessidade de trocar um ferrolho na janela da frente de sua casa.

Intriga-me, no entanto, a diferença monstruosa de perspectiva que se retrata na mente de pessoas de classes socias diferentes no Brasil e no mundo. Impossível imaginar os sonhos ou o conceito de felicidade que a mulher da cocada nutre. A realização pessoal de alguém cujas necessidades vitais mal são atendidas é, certamente, um fator que passa desapercebido na vida de quem deseja, um dia, ser um profissional renomado, ter um apartamente amplo, uma boa casa de praia, dois carros na garagem e poder viajar com os filhos nas férias de meio de ano. A vida tem desses contrastes.

O desafio é valorizar, seja qual for a classe social, aquilo que se tem, controlando - de forma racional, é claro - a ambição que a sociedade capitalista impõe a todos nós. É preciso cultuar a simplicidade, afinal. Leonardo Boff, em um de seus mais recentes artigos, diz uma coisa interessante: os grandes homens que a humanidade já conheceu eram pessoas absolutamente simples. Estão nesta lista Jesus Cristo e Gandhi, por exemplo.

Enquanto escrevo neste blog, imagino o que estará fazendo, neste exato momento, a mulher da cocada. Penso, também, se amanhã ela passará novamente por minha rua, dando a ela sua tão familiar sonoplastia, enquanto estudo para o tal do vestibular que ela provavelmente não chegou a fazer.

Como diria Humberto Gessinger: "Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter..."

sábado, 10 de janeiro de 2009

Estrelas cadentes


I.

Elas não entendem de conflitos históricos, bélicos ou político-territoriais. Sequer são capazes de apreender o significado das palavras fundamentalismo, Hamas ou ofensiva militar, que ecoam das televisões e rádios em suas casas. Seus pais, reunidos em torno dos aparelhos eletrônicos, têm rostos tensos. O pai brada palavras ora de ódio, ora de apoio ao ouvir o caloroso discurso. A mãe chora baixinho. Num instante, as crianças compreendem o fato de que mesmo não sendo capazes de entender a guerra, elas a sentirão e a viverão integralmente...

II.

No sábado, dia 27, começou a temporada de estrelas cadentes. O menino de oito anos que nas noites de verão almejava com todas as suas forças ver no céu aqueles ágeis traços luminosos sabia que agora eles não eram bons sinais. O resultado de suas aparições era sempre o mesmo: um estrondo assustador seguido invariavelmente de choros e gritos. O garoto passou a evitar o céu: tinha medo das estrelas cadentes.

III.

As 257 crianças mortas na ofensiva israelense à faixa de Gaza exigiram uma mudança de metáfora. As estrelas cadentes, agora, são essas figuras infantis.

Poucos as viram brilhar: elas tiveram tempo escasso. Essas estrelas tinham sonhos: algumas queriam ser cantoras, outras médicas, outras, ainda, desejavam ser jogadores de futebol; essas estrelas sorriam, brincavam, amavam.

As que permaneceram, ficaram com seus brilhos ofuscados pelo sofrimento que sorveram durante os dias em que as estrelas-mísseis clarearam o céu. Algumas estrelas-cadentes perderam a perna, outras o braço. Algumas tiveram seu espírito mutilado pelo ódio que absorveram e com sorte não enveredarão pelo caminho da violência que levará embora algumas estrelas de Davi...

IV.

Que injustiça não compreender a guerra e, no entanto, vivê-la integralmente.