sábado, 10 de janeiro de 2009

Estrelas cadentes


I.

Elas não entendem de conflitos históricos, bélicos ou político-territoriais. Sequer são capazes de apreender o significado das palavras fundamentalismo, Hamas ou ofensiva militar, que ecoam das televisões e rádios em suas casas. Seus pais, reunidos em torno dos aparelhos eletrônicos, têm rostos tensos. O pai brada palavras ora de ódio, ora de apoio ao ouvir o caloroso discurso. A mãe chora baixinho. Num instante, as crianças compreendem o fato de que mesmo não sendo capazes de entender a guerra, elas a sentirão e a viverão integralmente...

II.

No sábado, dia 27, começou a temporada de estrelas cadentes. O menino de oito anos que nas noites de verão almejava com todas as suas forças ver no céu aqueles ágeis traços luminosos sabia que agora eles não eram bons sinais. O resultado de suas aparições era sempre o mesmo: um estrondo assustador seguido invariavelmente de choros e gritos. O garoto passou a evitar o céu: tinha medo das estrelas cadentes.

III.

As 257 crianças mortas na ofensiva israelense à faixa de Gaza exigiram uma mudança de metáfora. As estrelas cadentes, agora, são essas figuras infantis.

Poucos as viram brilhar: elas tiveram tempo escasso. Essas estrelas tinham sonhos: algumas queriam ser cantoras, outras médicas, outras, ainda, desejavam ser jogadores de futebol; essas estrelas sorriam, brincavam, amavam.

As que permaneceram, ficaram com seus brilhos ofuscados pelo sofrimento que sorveram durante os dias em que as estrelas-mísseis clarearam o céu. Algumas estrelas-cadentes perderam a perna, outras o braço. Algumas tiveram seu espírito mutilado pelo ódio que absorveram e com sorte não enveredarão pelo caminho da violência que levará embora algumas estrelas de Davi...

IV.

Que injustiça não compreender a guerra e, no entanto, vivê-la integralmente.