domingo, 1 de fevereiro de 2009

A mulher da cocada

Algumas cocadas nada parecidas com as vendidas pela mulher.


Há sete anos moro na mesma rua. Invariavelmente, por volta das onze da manhã, eu ouço a mulher dizer "Olha a cocada!", com sua voz grave que já não pode mais ser dissociada do calor da hora. Durante esses últimos anos, inúmeras coisas já aconteceram a mim e às pessoas ao meu redor. Nossas vidas já se transformaram incontáveis vezes e, a cada dia, novos sonhos surgem em nossas mentes, fazendo-nos traçar planos cada vez mais mirabolantes para nossos futuros.

Paralelamente ao nosso crescimento pessoal e profissional, ao ritmo frenético com que nossos dias passam, a mulher da cocada permanece com sua rotina indefectível de trabalho braçal sob o Sol. Provavelmente, a senhora robusta da qual eu falo nunca se questinou o por quê de sua vida inteira ter se baseado na venda das sobremesas de coco. Provavelmente, ela realiza sua atividade diária de forma mecânica e o "Olha a cocada!" sai de suas cordas vocais enquanto ela pensa na necessidade de trocar um ferrolho na janela da frente de sua casa.

Intriga-me, no entanto, a diferença monstruosa de perspectiva que se retrata na mente de pessoas de classes socias diferentes no Brasil e no mundo. Impossível imaginar os sonhos ou o conceito de felicidade que a mulher da cocada nutre. A realização pessoal de alguém cujas necessidades vitais mal são atendidas é, certamente, um fator que passa desapercebido na vida de quem deseja, um dia, ser um profissional renomado, ter um apartamente amplo, uma boa casa de praia, dois carros na garagem e poder viajar com os filhos nas férias de meio de ano. A vida tem desses contrastes.

O desafio é valorizar, seja qual for a classe social, aquilo que se tem, controlando - de forma racional, é claro - a ambição que a sociedade capitalista impõe a todos nós. É preciso cultuar a simplicidade, afinal. Leonardo Boff, em um de seus mais recentes artigos, diz uma coisa interessante: os grandes homens que a humanidade já conheceu eram pessoas absolutamente simples. Estão nesta lista Jesus Cristo e Gandhi, por exemplo.

Enquanto escrevo neste blog, imagino o que estará fazendo, neste exato momento, a mulher da cocada. Penso, também, se amanhã ela passará novamente por minha rua, dando a ela sua tão familiar sonoplastia, enquanto estudo para o tal do vestibular que ela provavelmente não chegou a fazer.

Como diria Humberto Gessinger: "Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter..."