quinta-feira, 4 de março de 2010

Cinzas



Há muito tempo venho nutrindo a vontade de escrever sobre o incêndio que, em Outubro do ano passado, devorou parte das obras de Hélio Oiticica, artista plástico carioca falecido na década de 80. Vez por outra me vem à mente a reportagem sobre esse acontecimento que, por algum motivo, marcou-me.

Até ouvir falar do incidente, não conhecia o trabalho de Oiticica. Pesquisando-o, descobri sua fantástica obra, repleta de criatividade. Invenção sua, os "Parangolés" - espécie de capa decorada que só mostra seu colorido e sua beleza se estiver vestida por um ator em movimento - são uma amostra desse espírito criativo. Com sua obra "Tropicália", o artista inspirou também o famoso movimento artístico da década de 70.

Retornando do parágrafo explicativo, retomo história do incêndio: em 16 de Outubro do ano passado (como o tempo voa!), a maior parte das pinturas e esculturas de Oiticica ardeu em chamas na casa do irmão do artista, onde era guardado o acervo. "Arrombei a porta para sair a fumaça e a gente entrar e ver o que era, mas já era tarde demais. Já estava pegando fogo em tudo", disse o irmão.

De fato, já era tarde demais. Certas coisas, aliás, se perdem para sempre. Que é o artista sem suas obras? Se sua alma era expressa na concretude de seus trabalhos - no caso de Oiticica, no seu neoconcretismo... - e esses trabalhos se perdem, morre, novamente, um pouco (ou muito!) do artista.

A irreversibilidade de alguns fatos é real; brutal na maior parte das vezes. A oportunidade perdida, o abraço guardado, a palavra lançada, o descuido momentâneo, a destruição de um acervo artístico...

Paro de escrever. Falar o quê sobre o irreversível? Falar o quê se já queimou e virou cinzas?

-x-

I - Coincidentemente, enquanto eu pensava no blog, encontrei na revista Bravo deste mês uma nota sobre uma exposição de trabalhos remanescentes de Hélio Oiticica, a qual me reanimou a escrever esse texto e me fez ver que, de repente, nem tudo é tão irreversível assim...
II - Vale a pena buscar no Google os trabalhos do artista plástico carioca. Impressionantes!