quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Proposta para o ano-novo

(O incrível trabalho de Banksy, artista de rua britânico)


Concluí ontem a leitura de Tigre Branco.

Escrito por Aravind Adiga, jornalista indiano que foi correspondente da revista Time, esse é um livro que não está interessado em colorir a vida. Suas metáforas não são poéticas e os eufemismos são dispensados. Apesar de se tratar de uma evidente caricatura - e, como tal, dotada de alguns exageros - é um retrato realista da Índia que Elizabeth Gilbert (escritora e personagem central do excelente Comer, Rezar, Amar) não conheceu: longe dos ashrams, da ioga e dos elefantes, fala-se, aqui, na Índia em punjente desenvolvimento e repleta de celeumas sociais.

Munna (que expressivamente significa menino em híndi), o protagonista e narrador, sai da Escuridão, parte pobre e norte da Índia, para trabalhar na desenvolvida Déli como motorista. A partir daí, desenvolve-se uma sequência de fatos que culminam com a ''ação empreendedora'' do nosso anti-herói: assassinar seu patrão com uma garrafa de Johnnie Walker Black.

Apesar engraçadíssimo e dotado de um sarcasmo único, Tigre Branco, como toda boa obra, não nos deixa de transmitir os sentimentos de seus personagens. Em determinados momentos, chega-se a ficar constrangido pela situações em que Munna é colocado - massagear os pés de seu patrão sempre que solicitado, servir uísque ao mesmo tempo em que dirigia o carro e ser motivo de riso para a patroa, que, diante da sua inabilidade, fazia-o repetir a palavra ''pizza'' sem parar.

Além de seu estilo irreverente e dos excelentes recursos utilizados pelo autor, o que mais me impressiona no livro é a sua capacidade de contar a história de pessoas que muitas vezes tendem a ser invisíveis no nosso cotidiano. Como motorista, Munna encarna os trabalhadores que exercem funções domésticas e levanta uma importante reflexão: como estaremos tratando a empregada, o zelador, o faxineiro, o motorista? Será que os estamos enxergando? Por acaso interessamo-nos por essas pessoas e estamos cientes de sua riqueza intelectual e espiritual? Num país em que a escravidão durou teoricamente quase 400 anos (e, pasmem, ainda persiste na prática, em recônditos de nosso Brasil) permanecemos tratando esses trabalhadores como coisas?

No maravilhoso livro A elegância do Ouriço - da francesa Muriel Barbery -, Reneé, zeladora de um luxuoso prédio em Paris e protagonista, comenta a morte de seu marido, também zelador:

''Um concierge [zelador] que se apaga é um ligeiro vazio no cotidiano, uma certeza biológica a que não está associada nenhuma tragédia, e para os proprietários que cruzavam com ele todo dia na escada ou na porta de um cubículo , Lucien era uma não-existência que retornava a um nada do qual jamais tinha saído, um animal que, por viver uma semi-vida, sem fasto nem artifícios, devia, talvez, no momento da morte, sentir apenas uma semi-revolta''.

A questão é delicada e envolve uma enorme carga cultural de pré-conceitos e costumes incutidos em nossa mente antes mesmo de compreendê-los. Ambos os personagens mencionados percebem o contexto de submissão em que estão inseridos e sofrem muito por isso, a ponto de tornar tal fator o cerne de suas ações. Tanto Munna quanto Reneé sentem-se subestimados intelectualmente pela função que exercem e guardam em silêncio seus pensamentos, a fim de não pertubar a aparente ordem que existe na relação patrão-empregado. Interessantíssimo, também, é notar que essas duas pessoas estão inseridas em realidades completamente distintas: enquanto Munna vive em Déli, Reneé trabalha no centro de Paris; ao passo que Munna é mal-remunerado e não usurfrui de direitos trabalhistas, a atividade de Reneé é praticada em conformidade com a lei vigente. Tais fatos são uma indicação clara de que a situação à qual me refiro não se trata de um fenômeno local ou que dependa somente do respeito aos direitos do trabalhador. A realidade é muito mais complexa e não é exclusividade de países pobres ou simples herança da escravidão.

Fica, então, um questionamento acerca desse tema - que, para ser sincera, acho difícil nomear ou classificar; prefiro tratá-lo simplesmente por tema. Que no novo ano possamos refletir melhor a maneira com que elaboramos os papéis sociais desempenhados por nossos semelhantes e que nunca nos permitamos ver outras pessoas como semi-humanos. Enfim, que sejamos, capazes de valorizar cada homem e mulher em sua individualidade.


Um feliz 2011 para todos!


-x-


@ Para ver mais trabalhos de Banksy: http://www.banksy.co.uk/outdoors/outuk/horizontal_1.htm
Não deixe de acessar!

@ Para saber mais sobre a escravidão que ainda persiste no Brasil: http://blogdosakamoto.uol.com.br/

@ Os livros que eu citei nesse post estão, sem dúvida, entre minhas melhores leituras de 2010. Valem a pena!

@ Ah, e um feliz ano novo com certeza inclui: saúde, tolerância, família unida, amigos verdadeiros, muito amor e uma porção extra-grande de boas leituras, bons filmes e boa música!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Das aeromoças


Aeromoças são fascinantes. Cabelo impecável, sorriso de propaganda, postura elegante, maquiagem perfeita.
- ''Boa noite, senhora. Seja bem-vinda. Deixe-me ver o seu ticket. Ah, sua poltrona é logo ali. Obrigada por voar conosco.''

Mesmo antes da decolagem, elas já me impressionam com sua capacidade de fazer aquela simulação engraçada das medidas de segurança de forma absolutamente séria e compenetrada. Eu seria incapaz de tal feito. Minha primeira atitude seria olhar para os rostos dos passageiros à minha frente: os fóbicos com os olhos arregalados, vidrados nas instruções; os mais sonolentos já cochilando, de boca aberta; os indiferentes olhando para o nada; os intelectuais grudados nos livros e os supostos cronistas, como eu, observando aquela cena toda com o riso indisfarçadamente contido. Não, definitivamente, eu não seria capaz de dar as instruções de segurança sem paralisar no meio delas, diante de tão diversificada platéia. As aeromoças, por sua vez, impassíveis, articulam como se seus gestos se dissolvessem no ar à medida em que são realizados - experimentem prestar atenção, é bem curioso.

Meu próximo espanto é no momento de distribuição da refeição (aliás, tal espanto varia de grau com a complexidade dos alimentos oferecidos: almoço e jantar impressionam mais que um simples lanche, por exemplo). Fico abismada com o poder das aeromoças em se deslocarem no corredor apertadíssimo dos aviões com a destreza de quem anda numa passarela e a paciência de uma santa. Acredito que eu não chegaria na metade do aeroplano, tamanho meu desespero com a estreiteza do espaço.
- ''A senhora deseja frango ou peixe? Mais alguma coisa? E para beber?'' - ou - ''Pois não, senhor. Não, não temos filé com fritas''.

Nunca passei pela experência de um acidente aéreo - nem desejo ter essa história para contar aqui!-, mas minhas observações à bordo me dão a forte impressão de que as aermoças se mantêm impecáveis até mesmo nessas situações.
- ''Senhoras e senhores, por favor, mantenham a calma. Estamos passando por pequenos problemas técnicos e logo tudo se resolverá. Obrigada'' - e - ''Ladies and gentlemans, please, keep calm...''

Acho até que em alguns momentos de nossas vidas, deveríamos tentar ser um pouco aeromoças (ou comissários de bordo, para os rapazes). Quando a situação for de embaraço, o problema sufocante, ou mesmo quando o medo do futuro invadir a mecanicidade de nossa rotina, deveríamos experimentar a fórmula das habitués dos ares: sorriso, paciência, confiança e tranqüilidade.

Ah, como eu gostaria de ser aeromoça fora dos aviões!

Post dedicado a Daniel, que deve estar, neste momento, se preparando para entrar em um avião de volta para casa ;*
- x-
- Coloquei uma nova tag no blog - ''Livro(s) do momento'' . Funciona como um status acerca de minhas leituras atuais. Cada livro possui um link com informações extras. Espero que gostem das dicas!
- Update: comentário da minha irmã: ''se você tivesse passado por um acidente aéreo não estaria escrevendo, dã''. - Faz sentido.