domingo, 19 de junho de 2011

Borges

Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra" (via Bravo Online)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Da miopia



É engraçado como a gratidão nos chega sem hora certa. Invade nosso coração e aquece, emociona. A gratidão visitou-me hoje à tarde.

Tiro meus óculos para lavar o rosto e, ao levantá-lo, vejo (como é de costume) apenas o contorno da minha face. Devolvo as lentes aos olhos e volto a ver meu reflexo no espelho com perfeição. Foi nesse momento, no infinito que existe entre um segundo e outro, que me veio à mente agradecer por ter meus óculos ali, ao alcance das mãos. Pode parecer banal, mas - pense bem - ter óculos é uma grande oportunidade.

Para aqueles que tiveram a sorte de nascer com a visão perfeita, eu esclareço: ser míope é como estar olhando permanentemente por uma janela embaçada, tanto mais embaçada quanto for o seu grau. Pois bem, descobri que tinha miopia aos nove anos. As letras no quadro negro foram ficando cada vez mais embaralhadas e quando eu me dei conta que, sentada na primeira fileira, não conseguia mais distinguir as palavras, cheguei à minha mãe e disse: "Acho que preciso usar óculos". Na semana seguinte já estava exergando o mundo. A gratidão, no entanto, só veio agora, dez anos depois da descoberta da miopia.

É que na fração de segundos a que me referi anteriormente, recordei-me de alguns meninos de rua que me abordaram no sinal, à caminho de casa. Será que algum deles é míope? Em caso afirmativo, quem lhe dará uma visão perfeita? Pode ser que um deles enxerge o mundo como um borrão, tal qual eu o percebo sem óculos...

Não ver as coisas ao redor é mais ou menos como alimentar-se de uma comida aparentemente deliciosa sem sentir o sabor ou ir ao cinema e perder o final do filme. Então imagine a sensação de estar condenado à miopia a vida inteira (sim, pois se muitas pessoas não têm sequer acesso à medico, que dirá a um par de lentes)!

Nunca vi um menino de rua usando óculos, mas será que nenhum deles enxerga mal?
A gratidão veio à mim através de lentes divergentes.

-x-

Lembrei-me da emocionante passagem do livro O Castelo de Vidro, da americana Jeannette Walls. Transcrevo aqui:

"Quando os óculos ficaram prontos, fomos todos até o optometrista. As lentes eram tão grossas que faziam os olhos da Lori parecerem grandes e esbugalhados, que nem olho de peixe. Ela ficava mexendo a cabeça para os lados, e para cima e para baixo.
- O que é que foi? - perguntei. Em vez de responder, ela correu para o lado de fora. Eu fui atrás. Ela estava parada no estacionamento, olhando, pasma, para as árvores, as casas e os prédios comerciais atrás das casas.
- Você tá vendo aquela árvore lá atrás? - perguntou, apontando para um plátano a uns trinta metros de distância. Eu fiz que sim.
- Eu consigo ver não só aquela árvore, mas as folhas, cada uma delas. - Ela olhou para mim com ar de triunfo. - Você consegue?
Assenti.
Ela não parecia acreditar.
-Cada uma das folhas? Quer dizer, não só os galhos, mas cada folhinha?
Fiz que sim.
A Lori me olhou e, então, caiu no choro." (p.128)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Homo faber



Quarta-feira, conversando com o orientador da pesquisa (que tem como cerne Hannah Arendt) acerca de um comentário produzido por mim, ouvi (num carioquês irrepreensível):

-Pô, Ana, legal teu texto, mas perdeu fôlego no final, hein. Parece que tava com pressa em terminar!

É engraçada essa coisa da pressa, a tal inimiga da perfeição. Estive tão preocupada em finalizar períodos, concluir parágrafos e colocar pontos-finais que me esqueci do fundamental: o envolvimento e a qualidade com o que eu escrevia.

Fiz da palavra trabalho e tornei-me homo faber. O utilitarismo, esse vírus dos tempos modernos, tomou conta de mim. No começo até tentei resistir: ideias desenvolvidas, reflexões demoradas, pesquisa cuidadosa - não recordei que, em algum momento, o texto acabaria. Preenchidas meia-dúzias de folhas, apressei-me. "Passar mais uma tarde em um único texto? Fora de cogitação. Aposto que, de forma mais sistemática, produzo três no mesmo intervalo de tempo!". Digita.Digita.Digita. Ponto-final.

Hoje, em meio a elucubrações fora de hora (leia-se: durante o estudo de Direito Constitucional), perguntei a mim mesma qual o problema em permanecer muito tempo atada a uma mesma reflexão. Ora, eu poderia dar-me ao luxo: na Filosofia, a riqueza está na procura (e, muitas vezes, unicamente nela, já que respostas conclusivas são difícies nesse campo). Presos a tanta pressa, perdemos, afinal, toda a graça. Qual o sentido em contar as páginas do livro antes de começar a lê-lo? Melhor seria mergulhar na história até que ela se esvaísse! E qual a razão de tanta pressão por produtividade se não nos é dada a oportunidade de pensar?

Definitivamente, quero viver devagar.

(E está na hora de terminar este texto, que eu tenho mais o que fazer!)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Cicatrizes no papel


Tenho uma preferência irresistível por livros velhos. De frente para a estante, três edições idênticas do mesmo livro e, por mais que eu tente resistir, minha mão já está segurando o exemplar mais surrado, com a capa mais sofrida e as folhas mais amareladas.

Caso as páginas estejam suficientemente riscadas, sublinhadas e anotadas, maior será meu prazer em lê-lo. E quanto a encontrar no papel um esboço de desenho, qualquer que seja - corações, árvores, Sóis, luas ou iniciais? Meu interesse é elevado à décima potência.

E não se trata de fazer apologia à deterioração do patrimônio público, não. Simplesmente refiro-me ao sentimento particular de pertencimento ao mundo. É interessante a percepção de que outras mãos tocaram as mesmas folhas sobre as quais meus dedos, agora, deslizam. Tal impressão é instantânea, mas marcante. De repente, parece-me revelado que fazemos parte de um grande e fugaz ciclo - ele leu, eu leio, tu lerás...


No meio de uma leitura, pego-me, muitas vezes, meditando sobre aqueles que tiveram contato com livro antes de mim. Quem são e quem foram? Onde estão e onde estavam? O que fazem e o que faziam? Lembro-me, de súbito, que dentro de dez ou vinte dias (se minha opção for renovar o aluguel da obra), serei EU o pronome QUEM.


-x-

E por falar em cicatrizes, não podia deixar de transcrever uma das passagens mais bonitas que li nos últimos tempos, retirada do livro Pequena Abelha, de Chris Cleave, presente de uma grande amiga:

''[...] peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: 'Eu sobrevivi' ''.

(Alguém tem dúvida de que esse livro daria, com o perdão da cacofonia, uma excelente leitura futura?)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Ainda estou procurando um título que não seja clichê



''Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não quero dizer''
(Clarice Lispector na crônica Persona)


Neste texto refiro-me à palavra escrita. E não estou falando das crônicas de Clarice (depois de ler muitas, o leitor sente-se tão intímo que dispensa o Lispector) ou das obras de Erico Veríssimo (do qual me deu uma saudade danada ultimamente). Refiro-me, na verdade, àquelas palavras que despretensiosamente escrevemos na agenda todos os dias:

"21/02 - Cortar o cabelo''

''03/05 - Terminar o artigo''

'' Hoje - SER MAIS CALMAAAAAA, ORAS!!!!!!!!''

Agenda e caneta, aliás, são meus mais novos vícios. Parece-me que mesmo com a certeza da necessidade de uma ação ou do concretizar de um plano, e ainda que o fato seja suficientemente importante para eu não esquecer, escrevo para ter a confirmação de que tudo sairá como previsto. É como se as palavras pudessem fazer a mágica de garantir que as coisas não fujam ao meu controle e me dissessem a cada letra desenhada: ''Colocou no papel não tem jeito de dar errado, hein''.

Não por acaso sigo o velho conselho de que se queres uma coisa, escreva. O segredo estará no combo ''desejar-escrever''. A palavra diz para o mundo; especialmente a escrita, que - veja que coisa linda! -, é a materialização de sons (neste momento começo a imaginar milhares de letrinhas fluorescentes saindo de nossas bocas e caindo no papel num balé gracioso). Eu não poderia ver algo além de mágica nisso tudo.

E se num instante vier a minha mente frases como ''Viver o hoje'' e ''Agradecer a Deus'' não hesito em escrevê-las. Pelo menos por um instante, escrever, em si, será viver o hoje e agradecer a Deus.

-x-

Já disse o quanto estou apaixonada pelas crônicas de Clarice Lispector?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Subaquático

E como o verão está aí, nos enchendo dessa coisa boa que é o contato com o Sol e o mar - agradeçamos, então, por vivermos no litoral brasileiro! - hoje o post é subaquático (?!).

As fotografias que seguem são da russa Elena Kalis, cujo trabalho descobri por acaso. Especialista em fotos submersas, Kalis faz um trabalho irresistivelmente onírico.





Deu vontade de dar um mergulho? http://www.elenakalisphoto.com/