quarta-feira, 30 de março de 2011

Cicatrizes no papel


Tenho uma preferência irresistível por livros velhos. De frente para a estante, três edições idênticas do mesmo livro e, por mais que eu tente resistir, minha mão já está segurando o exemplar mais surrado, com a capa mais sofrida e as folhas mais amareladas.

Caso as páginas estejam suficientemente riscadas, sublinhadas e anotadas, maior será meu prazer em lê-lo. E quanto a encontrar no papel um esboço de desenho, qualquer que seja - corações, árvores, Sóis, luas ou iniciais? Meu interesse é elevado à décima potência.

E não se trata de fazer apologia à deterioração do patrimônio público, não. Simplesmente refiro-me ao sentimento particular de pertencimento ao mundo. É interessante a percepção de que outras mãos tocaram as mesmas folhas sobre as quais meus dedos, agora, deslizam. Tal impressão é instantânea, mas marcante. De repente, parece-me revelado que fazemos parte de um grande e fugaz ciclo - ele leu, eu leio, tu lerás...


No meio de uma leitura, pego-me, muitas vezes, meditando sobre aqueles que tiveram contato com livro antes de mim. Quem são e quem foram? Onde estão e onde estavam? O que fazem e o que faziam? Lembro-me, de súbito, que dentro de dez ou vinte dias (se minha opção for renovar o aluguel da obra), serei EU o pronome QUEM.


-x-

E por falar em cicatrizes, não podia deixar de transcrever uma das passagens mais bonitas que li nos últimos tempos, retirada do livro Pequena Abelha, de Chris Cleave, presente de uma grande amiga:

''[...] peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: 'Eu sobrevivi' ''.

(Alguém tem dúvida de que esse livro daria, com o perdão da cacofonia, uma excelente leitura futura?)