sexta-feira, 29 de abril de 2011

Homo faber



Quarta-feira, conversando com o orientador da pesquisa (que tem como cerne Hannah Arendt) acerca de um comentário produzido por mim, ouvi (num carioquês irrepreensível):

-Pô, Ana, legal teu texto, mas perdeu fôlego no final, hein. Parece que tava com pressa em terminar!

É engraçada essa coisa da pressa, a tal inimiga da perfeição. Estive tão preocupada em finalizar períodos, concluir parágrafos e colocar pontos-finais que me esqueci do fundamental: o envolvimento e a qualidade com o que eu escrevia.

Fiz da palavra trabalho e tornei-me homo faber. O utilitarismo, esse vírus dos tempos modernos, tomou conta de mim. No começo até tentei resistir: ideias desenvolvidas, reflexões demoradas, pesquisa cuidadosa - não recordei que, em algum momento, o texto acabaria. Preenchidas meia-dúzias de folhas, apressei-me. "Passar mais uma tarde em um único texto? Fora de cogitação. Aposto que, de forma mais sistemática, produzo três no mesmo intervalo de tempo!". Digita.Digita.Digita. Ponto-final.

Hoje, em meio a elucubrações fora de hora (leia-se: durante o estudo de Direito Constitucional), perguntei a mim mesma qual o problema em permanecer muito tempo atada a uma mesma reflexão. Ora, eu poderia dar-me ao luxo: na Filosofia, a riqueza está na procura (e, muitas vezes, unicamente nela, já que respostas conclusivas são difícies nesse campo). Presos a tanta pressa, perdemos, afinal, toda a graça. Qual o sentido em contar as páginas do livro antes de começar a lê-lo? Melhor seria mergulhar na história até que ela se esvaísse! E qual a razão de tanta pressão por produtividade se não nos é dada a oportunidade de pensar?

Definitivamente, quero viver devagar.

(E está na hora de terminar este texto, que eu tenho mais o que fazer!)