domingo, 5 de fevereiro de 2012

A hora do anjo


Esses dias eu estava na Ribeira, defronte ao antigo Grande Hotel - hoje sede dos Juizados Especiais Cíveis e do Juizado Especial Criminal da Comarca de Natal (ufa!) - esperando minha carona.

Em minha frente uma praça bastante estreita e a Igreja Bom Jesus (seria esse o nome? Não tenho certeza, corrijam-me, por favor). A Ribeira é um bairro interessante. Ruas largas, construções antigas e qualquer coisa de decadente sem, contudo, perder o fascínio. Agrada-me.

Um dos meus divertimentos favoritos pós-expediente, aliás, era observar os transeuntes que por ali circulavam. Na maior parte do tempo pessoas comuns, mas às vezes figuras tão caricatas que aparecem com o imperativo de registra-las na escrita. Assim era aquele senhor.

Nada peculiar em sua vestimenta. Não fosse pelas meias altas que quase lhe chegavam ao joelho, talvez eu não o tivesse notado. Boné, regata e bermuda jeans. No pescoço pendia um crucifixo e seu andar apressado, de passadas curtas, revelava uma certa pressa, mas também habitualidade com o ambiente.

O trânsito ao redor era intenso e tingia o fim da tarde com as tonalidades vermelho e amarelo. No meio de toda a confusão das 18 horas, das buzinas e do apito dos ônibus a cada freada, lá estava ele, o protagonista desta crônica. Ao chegar no meio da praça, em frente a Igreja, pára, benze-se e segue seu caminho. Nada demais, é verdade. Talvez meu espírito é que estivesse meio necessitado de demonstrações de fé depois de tanto tempo sem meditar. O fato é que o gesto marcou-me, como um sinal divino naquele dia. De algum modo, fui alertada de que existe algo misterioso além do concreto e do barulho de um fim de tarde, aquela coisa que torna nossa existência mais cheia de sentido, vertendo um brilho especial no mundo ao nosso redor.

Não duvido que o senhor tenha se benzido pelo puro hábito de fazer o sinal-da-cruz ao passar em frente a uma Igreja, enquanto pensava na conta que iria pagar em seguida. Para mim, não faria a mínima diferença. Às vezes nossa alma está tão carente de transcendência (ou seria o inverso? Veio-me a dúvida) que qualquer coisa é capaz de nos resgatar a consolação.

O velho passou. Entrei no carro e no rádio tocava o Angelus, trazendo-me um pouco de sanidade no meio da fascinante, decadente e movimentada Ribeira.
-x-

1. Crédito da foto: "Ribeira". Peguei do tumblr de alguém chamado Verena Vianna. Valeu!

2. Meu desejo é voltar a escrever com uma certa periodicidade. Todo domingo, quem sabe. Vamos ver se agora eu cumpro a promessa.