sábado, 29 de dezembro de 2012

O que nos faz sentir



(William Kentridge em seu estúdio)

Nunca fui uma pessoa muito musical. Não tenho essa necessidade que alguns possuem de descobrir novos artistas e canções. Tirando algumas músicas intragáveis que tenho ouvido por aí, ouço o que me oferecem sem fazer tanto juízo de valor.

Tampouco tenho uma veia artística apurada. Não sei desenhar nem tenho um senso de decoração aguçado, como algumas amigas. Não sou grande conhecedora de movimentos artísticos - expressionismo, impressionismo, fauvismo... Todos os "-ismos" me vêm à mente como num caleidoscópio.  

E assim tenho o gancho para dizer que na minha última viagem ao Rio tive a oportunidade de visitar duas exposições tão interessantes quanto distintas. A primeira delas, intitulada "Impressionismo - Paris e a modernidade", trouxe ao Centro Cultural Banco do Brasil diversas obras-primas do Musée d'Orsey de Paris. Dentre os artistas cujas obras foram expostas estão Edouard Manet, Claude Monet, Auguste Renoir, Edgar Degas e Van Gogh. A outra amostra, que tem como título “Fortuna”, encontrava-se exposta no Instituto Moreira Salles e tinha como foco a obra do artista plástico sul-africano William Kentridge.

Na primeira, pinturas a óleo coloridas e iluminadas: irresistíveis pela leveza. Na exposição de Kentridge, uma miscelânea curiosa de desenhos realizados com carvão, esculturas feitas com megafones e potes de café e sons produzidos por estacas e ópera: igualmente irresistível, mas pela força.

A constatação de que, apesar de tão díspares, ambas as exposições me emocionaram – confirmando meu pensamento de que meu gosto é, de fato, bastante volúvel – fez-me perceber que para meu fascínio estético não há rótulos.

Aliás, estética e música sempre foram sensitivas para mim. Gosto daquilo o que me faz sentir. Sentir o quê? Qualquer coisa. Gosto do que me desperta emoções, marca-me e me comove. Não necessito tanto do belo, mas preciso do que me deslumbre, seja por sua beleza ou por seu caráter grotesco.

Por isso, creio firmemente não se pode deixar de adentrar numa exposição por não conhecer o artista ou por ela fugir do padrão de arte ao qual nos habituamos. Também não devemos deixar de ouvir determinado compositor simplesmente por não conhecê-lo. Devemos, isso sim, estar em busca do que nos desperta aquele palpitar dentro do peito, sem nos preocuparmos demasiadamente com a definição daquilo que confrontamos. Crença que, afinal, aplica-se a todas as coisas da vida. 

E em meio a toda essa exaltação do indizível, não resisti em citar Clarice Lispector numa frase clichê (rótulos, rótulos...), mas sempre verdadeira: “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. É tudo o que eu quero para 2013: viver mais do que entender, sentir mais do que rotular.     




(O lago das Ninféias, de Monet)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Da interessância



(Pilar del Rio, em cena do documentário)

Esses dias, iniciei a leitura de "José e Pilar - Conversas Inéditas", que me foi dado de presente por uma amiga muito querida. 

A proposta da publicação, que tem como editora a (sempre maravilhosa) Companhia das Letras, é fazer uma compilação de diversas entrevistas realizadas pelo cineasta Miguel Gonçalves Mendes junto ao escritor José Saramago e sua esposa, a jornalista espanhola Pilar del Rio. As entrevistas serviram de substância para o documentário "José e Pilar", ao qual não tive a chance de assistir ainda. 

As conversas presentes no livro são extraordinariamente inteligentes e, mais que isso, interessantes- sim, porque nem todas as pessoas inteligentes são interessantes!

A interessância - permitem-me o neologismo? - exige mais que admiração decorrente de grandes habilidades intelectuais; ela também não está na estética ou na condição financeira, menos ainda na função social ocupada (quantos homens públicos despidos de qualquer interessância...). 

A interessância de alguém está no desejo que as pessoas têm de fruir de sua presença, observar os seus gestos, suas as palavras e compreender suas ideias. É qualquer coisa que nos fixa a atenção sem que saibamos exatamente onde se encontra a fonte de nosso espanto – não está, portanto, num carro nem numa bolsa.   

O que torna alguém interessante? Venho-me perguntando desde que iniciei a leitura do livro. Sem fechar a questão - afinal, o que desperta meu interesse talvez não o faça com mais ninguém! -, penso que uma pessoa interessante é, antes de qualquer coisa, alguém muito interessado no mundo ao seu redor. 

O interessante não é um egocêntrico, pelo contrário: ele tem sede do outro, pois sempre há algo mais a ser descoberto. Seus olhos, seus ouvidos e sua mente estão voltados para o que esta além da superfície. Para ele, as coisas podem até ser simples, mas jamais são simplórias. O mundo é um perpétuo objeto de estudo para o interessante.

 A interessância, pois, está na capacidade de fruir da beleza que nos envolve cotidianamente sem que a percebamos. O olhar curioso do interessante contagia a outros, que, em sua presença, passam a presenciar o milagre de se sentirem abismados pelas pequenas coisas.

Quando encontrar uma pessoa digna de interesse – e não estou falando de desejo físico ou algo parecido – não a deixe escapar: aprenda com ela, converse, sorva um pouco de seu olhar. É esse, afinal, o segredo de nossa própria interessância.  

-x-

Para não perder o costume, transcrevo aqui uma passagem muito interessante (rsrsrsrs, desculpem a repetição!) do livro:

A Pilar é uma máquina de gestão e de organização. Não sei como é que a Pilar consegue trabalhar tanto.
Primeiro, porque aprendi uma coisa que me propus como norma de vida quando era pequena: pra descansar, temos a eternidade, quando morrermos, descansaremos. Segunda coisa que aprendi: não há nada mais repugnante que... bem, sim, há muitas coisas repugnantes, mas também é repugnante queixar-se. Que horror! Ou seja, estar cansado quando nos corre o sangue nas veia, o que é um privilégio, nada mais nada menos que um privilégio estarmos vivos... Considero que enquanto estivermos vivos temos que estar vivos e depois passaremos ao descanso. Enquanto isso, a vida nos traz os dias, e os dias, cada um, vinte e quatro horas, e portanto dá tempo para muitíssimas coisas... Porque o que não fizermos hoje... Tem algo mais que considero importante: viver todos os dias como se fosse o primeiro e como se fosse o último. Isso eu tenho muito claro toda manhã quando me levanto, que se for o último não vão ficar coisas por fazer, e que vou vive-lo com a mesma ilusão do primeiro. Há cinquenta e seis anos estou fazendo isso e não tenho me dado mal. Mantenho-me. Mantenho-me melhor que outros.

Que as palavras de Pilar del Rio sejam nossa força  no ano que virá!