domingo, 15 de setembro de 2013

(Des)confortável passado



"Nossa herança nos foi deixada sem nenhum testamento." (René Char)

Intriga-me como algumas pessoas se prendem ao passado como a uma tábua de salvação. Sim, pois se agarrar a um passado conhecido - mesmo que doloroso - é muito mais confortável do que se arriscar nas correntezas de um presente que, inexoravelmente, leva a um futuro incerto.

É que perdoar um determinado momento histórico chega a ser mais desafiador do que perdoar pessoas, cujas faces humanas são identificáveis. Para se reconciliar com determinado tempo, é necessário fazer as pazes com toda a humanidade e com o despersonalizado fluxo da história. Não se imagine que perdoar o passado significa olhá-lo sem dor. Tampouco se sugere anistiar os vilões da história: todos devem arcar com as consequências de suas ações, independentemente de tê-las realizado com a consciência do erro ou imersos numa engrenagem social que não lhes permitia uma visão clara de seus atos.

Perdoar o tempo, porém, indica a capacidade de olhar a história com a maturidade de quem já a viveu e - bem ou mal - sobreviveu a ela. O quão admiráveis são as pessoas que não se deixam engessar por uma época e, corajosamente, afirmam que o seu tempo é o presente.

Não é tarefa fácil. Alguns indivíduos passam a vida toda apegados a um trauma, pois não se conhece melhor justificativa para qualquer coisa do que o legítimo sofrimento. Remeter-se indistintamente ao passado numa tentativa de encontrar respostas para o inédito é como andar de muletas, mesmo em virtude de um ferimento que já curou. Nada é mais confortável que o amparo de estruturas de pensamento já conhecidas.

Com isso, não se quer insinuar que o passado não ensina. Devemos tudo o que sabemos àquilo construído por nossos antepassados e por nós mesmos, quando o hoje ainda não era o hoje. Ocorre que, às vezes, as fórmulas comumente utilizadas não são aptas a fornecer respostas satisfatórias às perplexidades da atualidade. Nesse momento, o fio da tradição se rompe - como diria Hannah Arendt -  e o passado perde a sua autoridade. E nessa lacuna "entre o passado e o futuro" somente os corajosos que, de peito aberto, encaram o presente como o "seu tempo", conseguem se movimentar.

Essa atitude desprendida é essencial não apenas aos pensadores das ciências humanas e sociais. É uma necessidade de todos nós, dia após dia. Diria Chorão, saudoso vocalista da banda Charlie Brown Jr. (que embalou minha adolescência), "cuidado com o destino, ele brinca com as pessoas". E se o destino te levasse para situações sem precedentes e suas experiências passadas não fossem capazes de lhe fornecer as respostas? Você se deixaria entregar ao novo e enxergaria, face a face, a beleza do desconhecido? Ou assumiria um postura negacionista, encarando o novo com os mesmos velhos hábitos?

É bem verdade que esta postagem não deve ser encarada como um texto de auto-ajuda. O que me causa perplexidade é a atitude de certos acadêmicos, os quais, na busca por enquadrar nossa realidade histórico-política em conceitos ultrapassados, incorrem na inglória tarefa de uma criança que, aprendendo a montar um quebra-cabeça nos tenros estágios do desenvolvimento, tenta sem sucesso encaixar um círculo num molde de formato quadrado.

Resta-nos torcer para que, assim como as crianças que aprendem a montar quebra-cabeças, cheguemos a pensar sem os auxílios de uma tradição que foi irremediavelmente quebrada.

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A inspiração para esse texto veio da coletânea de artigos denominada "Entre o Passado e o Futuro", da filósofa política Hannah Arendt, publicada pela editora Perspectiva.