sábado, 29 de agosto de 2015

A aventura da rádio




Depois da mudança para São Paulo, o final de semana ficou mais repleto de obrigações acadêmicas e a minha casa, menos movimentada. Durante as horas em frente ao computador, dedicadas a relatórios, artigos e fichamentos tão prazerosos quanto intermináveis, adquiri o hábito de escutar a rádio, pela internet. Dividir minha audição entre o som ininterrupto do teclado e as músicas que tocam aleatoriamente acabam por tornar meu sábado mais leve, como se o trabalho ganhasse suaves contornos oníricos.

Mais do que isso, descobri que ouvir a rádio pode mesmo ser uma aventura emocional. Em tempos de playlist e Ipod, não escolher - ou, mais, não saber - o que irá escutar é um verdadeiro exercício sensitivo. A nova música pode causar euforia ou melancolia; pode remeter a um momento feliz ou difícil; pode ser empolgante ou decepcionante. É a banalidade nos ensinando um pouco sobre a imprevisibilidade da vida.

Isso me faz pensar que, possivelmente, estamos inseridos em uma geração habituada a ter (quase) tudo sob controle: os amigos e familiares estão ao alcance da mão, mediante uma ligação no celular ou um recado via whatsapp - neste último caso, é ainda mais assombroso, já que é possível, inclusive, ter imediato conhecimento sobre o fato de o outro indivíduo ter lido ou não a mensagem! Antes mesmo de visitar um museu, temos acesso a todo o seu acervo nos websites; ainda nos preparativos de uma viagem, podemos caminhar por todo o destino via Google Maps... 

O interessante é que a despeito de toda a segurança que esses recursos fornecem, eles nos retiram um tanto de nossa espontaneidade e de nossa capacidade de deslumbramento, tão cara a nosso potencial de abstração. Talvez em virtude dessa sensação de domínio, a Filosofia (uma necessidade) tenha se tornado artigo de luxo no ensino escolar e universitário; na ilusão de que somos capazes de controlar tudo, oferecemos as mesmas respostas velhas aos novos problemas - e continuamos nos frustrando, incapazes de compreender que, no fim das contas, nem a ciência nos fornece certezas absolutas.

Afinal, talvez devêssemos deixar as playlists de lado e ouvir um pouco mais da rádio. Entregar-se ao desconhecido e deixar-se surpreender por uma deliberada ignorância sobre o futuro pode nos tornar muito mais reflexivos.  

-x-

- No momento, está tocando "Rainy Days and Mondays", dos Carpenters (https://www.youtube.com/watch?v=PjFoQxjgbrs)