terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Mario Vieira de Mello, o humanista

                          

(Scuela di Atene, de Rafaello Sanzio)

No início de 2015, ousei publicar no blog as minhas metas de leitura para aquele ano. Dentre as três que estipulei, pelo menos duas eu me esforcei ao máximo para alcançar, enquanto outra ficou absolutamente esquecida ao longo desse período. Assim, (1) ler mais livros de não-ficção (não-jurídicos) e (2) ler mais textos em língua estrangeira foram as metas cumpridas com relativo sucesso – relativo, pois sempre achamos que poderíamos ter feito mais –, enquanto que me (3) dedicar ao estudo da filosofia, da Antiguidade Clássica ao Século XIII permaneceu, mais um ano, na gaveta das protelações. Contudo, precisamente em razão dos frutos que colhi com a meta nº 1, renovo, em 2016, meus votos para uma leitura mais acurada da filosofia em suas origens clássicas. Explico.

Dentre os livros de não-ficção que me proporcionaram bons momentos ao longo do ano passado, “O Humanista”, de Mario Vieira de Mello, possivelmente foi o mais significativo deles. O livro representa um verdadeiro manifesto em prol do resgate de nossas raízes filosóficas gregas – “esse fogo sagrado que, uma vez acendido, não se consegue mais apagar” (p. 266). Com uma escrita sem meias-palavras e a coragem de quem acumulou, ao longo da vida de diplomata (por favor, não confundir com Sergio Vieira de Mello!), estudo, cultura e experiência suficientes para ter opinião acerca dos rumos de nossa educação, Mario Vieira de Mello, em seu “O Humanista – a ordem na alma do indivíduo e da sociedade”, nos deixa, em cada página, perplexos com seu bom senso. Não há uma só frase da qual não se extraia uma reflexão ou, pelo menos, uma lição estilística: concordemos ou não com o que ele diz, não se pode ficar indiferente ao estilo culto e incisivo com que o autor tece seus bem-fundamentados argumentos acerca do destino da filosofia. E esse destino, para ele, é irremediavelmente trágico se não formos capazes de retomar o humanismo cultivado pelos gregos, para os quais a razão e a liberdade ligavam-se, por sua própria essência, à virtude.

Para Mario Vieira de Mello, a filosofia moderna e contemporânea – salvo algumas valorosas exceções – teria perdido a essência do humanismo na medida em que deixou de enxergar o homem como uma possibilidade a ser transformada pela educação, reduzindo-o a bom, como faz Rousseau, ou mau, como fazem Hobbes e Maquiavel. A sugestão do homem como possibilidade, que encontramos na obra de Platão, funda-se na ideia de que a virtude pode ser ensinada, e mais: “que o conhecimento é virtude porque é conhecimento daquilo o que no homem constitui virtude" (p. 163). Assim, segundo Mello, não é possível conceber um modelo pedagógico positivo que seja alheio à formação do ser humano enquanto indivíduo reflexivo, capaz de nortear sua vida conforme as escolhas morais que são feitas por meio da racionalidade. No sentido de construir esses fundamentos educacionais, Mario Vieira de Mello afirma que os filósofos modernos e contemporâneos em nada ajudaram, ou pior: somente degradaram esse projeto, levando-nos a vê-lo como algo decadente, como uma roupa velha que já não nos caberia mais. 

Dessa forma, Mello parte para um ataque elegante e lúcido, conquanto feroz, sobre os pilares daquilo o que se entende enquanto modernidade filosófica. Para ele, Heidegger, “justamente por se considerar um Deus, só pronuncia palavras incompreensíveis”, de modo que ele “não procura educar ninguém; o que ele procura é hipnotizar seus ouvintes e leitores" (p. 99); Sartre, por sua vez, era dotado de um engagement “que o autorizava a ignorar a ser indiferente a todo o resto que estivesse à sua volta” (p. 171); o projeto filosófico de Foucault “é a quintessência do equívoco criado em torno da filosofia de Nietzsche” (p. 174) e o estudante norte-americano, quando se torna scholar, “continua impertinente porque não deixou de ser ignorante, e continua ignorante porque não deixou de ser impertinente” (p. 161). Nietzsche, por sua vez, merece uma atenção mais acurada na obra. A esse filósofo, aliás, Mario Vieira de Mello dedicou um livro exclusivo – mais um para a lista de 2016. O autor considera Nietzsche uma grande mente, extremamente mal compreendida – seja em virtude dos ardis de sua irmã, Elizabeth, reconhecida manipuladora de escritos e cartas desse filósofo atormentado, seja em razão das más leituras feitas por seus intérpretes. Para Mario Vieira de Mello, Nietzsche “tem um projeto de cultura” e “nos está convidando a que empreendamos uma releitura de Sócrates” (p. 187), de tal modo que “o pensamento de Sócrates está presente no espírito de Nietzsche em muitos casos em que não foi pronunciado o seu nome [...]". 

Não é difícil perceber o motivo pelo qual Mario Vieira de Mello não somente não é bem recebido nos meios filosóficos, como seu nome não é, na maior parte das vezes, sequer mencionado. Segundo ele próprio, “não há aqui possibilidades de acomodações, de meio termos" (p. 255): ao se levantar a bandeira do humanismo, não se pode compactuar uma sociedade que transformou o poder, e não a cultura, na base de seu desenvolvimento. Nesse sentido, Mello relaciona a ordem interna do indivíduo (humanismo) com os rumos éticos de nossas comunidades democráticas. Para ele, o homem contemporâneo ainda não foi capaz de compreender que não se pode falar sobre liberdade exterior sem que se preocupe, de igual maneira, com aquilo o que ele chama de liberdade interior, conquistada tão somente quando o indivíduo é capaz, através de sua razão, de dominar seus instintos interiores e agir conforme uma séria deliberação moral. 

Por tudo isso, lendo “O Humanista”, refleti muitas vezes sobre a postagem anterior, intitulada “Repensando a liberdade de expressão”. Questiono-me se, ao mencionar o caráter contraintuitivo da defesa que fazem os teóricos norte-americanos da liberdade de expressão, eu não queria fazer referência, mesmo sem ter consciência disso, ao seu anti-humanismo. Isso porque argumentar que a máxima liberdade só se conquista quando ao indivíduo é facultado dizer (quase tudo) o que quiser, não me pareceu totalmente compatível com o ideal humanista, pelo qual o caberia ao cidadão submeter seu discurso ao crivo da racionalidade – e da moralidade que dela advém.


Acerca da tradição filosófica norte-americana, aliás, Mario Vieira de Mello é bastante crítico. Para ele, “a questão do humanismo fere no seu ponto mais sensível o dogma da nação norte-americana porque ele também tem suas ideias sobre o problema da liberdade" (p. 73), de tal modo que ao cultuar fervorosamente a liberdade, os norte-americanos esquecem a liberdade interior, que pressupõe, inegavelmente, uma espiritualidade que busca a virtude e só pode ser alcançada através de um processo de aperfeiçoamento cultural duradouro. Por essa razão, diz Mello, tal liberdade desengajada tem ampla aceitação nos Estados Unidos, que propôs uma civilização não contaminada pelas influências europeias – e, portanto, hostil à toda bagagem cultural do Velho Continente. O problema aqui, obviamente, é que a ruptura com o Velho Continente e toda a sua herança clássica pressupõe o surgimento de uma tradição filosófica que nega todo o projeto educacional da Antiguidade grega, destinado a aprimorar as virtudes do homem. Ao rechaçar essas raízes, explica Mello, os norte-americanos, assim como a leva contemporânea de filósofos europeus, não trazem benefícios para o aprimoramento espiritual do ser humano, mas, ao contrário, o torna escravo de um estruturalismo e um desconstrucionismo que o esvazia. Assim, o que Mario Vieira de Mello propõe é precisamente o resgate do humanismo clássico como uma saída para o estado de desesperança e ceticismo que impregnou a filosofia moderna e atual.


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Diante da obra de Mario Vieira de Mello, me vi como um náufrago que, encontrado após dias e dias de jejum, se vê impossibilitado de matar imediatamente sua sede e comer uma quantidade significativa de alimento, em virtude do fato de que seu corpo faminto pode não resistir ao impacto da saciedade; nesses casos, é preciso sorver, pouco a pouco, pequenas colheres de água com açúcar e passar um período alimentando-se de migalhas para, só então, ser capaz de digerir corretamente um montante satisfatório de comida. Em outros termos, a leitura de Mario Vieira de Mello deve ser feita com parcimônia;  é preciso degluti-la aos poucos, meditar sobre ela e, quem sabe, após certos anos de experiência de vida e estudos filosóficos, concordar com ela, deleitando-se, repetidas vezes, nesse manjar cultural.