segunda-feira, 9 de maio de 2016

Crônica da formiga

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"Formiga faz bem pra vista!"

Em uma roda de conversa, há não muito tempo, um amigo nos relatou a sua visão acerca do papel do ser humano no Universo. 

Conforme nos explicou, o Universo existe há 13,7 bilhões de anos. O planeta Terra, por sua vez, conta com 4,5 bilhões de anos. A espécie humana, por fim, habita a Terra há 200 mil anos.

Nesse contexto grandioso, o ser humano é a formiga. Daquelas que aparecem repentinamente sobre as páginas de um livro que estejamos lendo e, com um simples e impensado balançar de dedos, é lançada para longe. A formiguinha que nutre a pretensão de ser o único ser vivo inteligente da Via Láctea. A formiguinha que chegou a pensar que seu formigueiro constituía o centro do Sistema Solar, mas cujo ego recebeu um grande golpe quando descobriu que, na verdade, é o Sol que ocupa o centro.

Somos formiguinhas. E essa percepção, que à primeira vista parece melancólica, pode ser extremamente libertadora.  

A consciência de nossa pequenez temporal nos desincumbe de muitos ônus que impomos à nossa própria existência. Fazer-se notável, seja de que modo for, não é capaz de transformar a nossa condição humana: no contexto de 13,7 bilhões de anos, somos apenas sopros suaves. Agradar aos demais também não parece grande coisa: o orgulho de uma formiga definitivamente não é importante para aquele que, sem ter qualquer motivo especial, esmaga o pequeno inseto que perambulava por sua mesa de estudo. O reconhecimento também se torna algo irrelevante, pois o espaço exterior é muito maior do que capta a sensibilidade da formiga.

Em síntese, a vida da formiguinha não exerce nenhuma função imprescindível no Universo e é precisamente aí que se encontra o mistério de sua existência. A vida é um milagre na medida em que não existe um por quê para ela: cabe a cada formiguinha decidir como viver. E se o espaço exterior não é importante, na medida em que a própria formiga não tem importância para aquilo o que existe imediatamente ao seu redor, uma única justificativa remanesce para sua existência: a sua própria felicidade.

As coisas seriam muito mais fáceis se adotássemos diariamente a perspectiva da formiga: buscando o regozijo naquilo o que depende exclusivamente de nós; trabalhando incansavelmente na construção daquilo o que nos fará felizes, carregando folha após folha.

Nossa pequenez diante do Infinito demonstra uma única coisa: o Universo não nos deve nada, mas a nós mesmos devemos a vida que nos torna espiritualmente satisfeitos. Apenas para a felicidade não existem métricas temporais e espaciais disponíveis.       

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Dedico a Klauss Nardy, o amigo que nos contou a história e me fez incorporar o "ser formiga" no dia-a-dia. 

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