segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Nietzsche - O Sócrates de nossos tempos?



Prosseguindo nas leituras da obra de Mario Vieira de Mello, o comentário da vez será a respeito do livro Nietzsche – O Sócrates de nossos tempos. 

A dificuldade principal, nesse sentido, se deve especialmente ao fato de que conheço muito pouco da obra de Nietzsche. E, aliás, nisso consiste o meu primeiro comentário a respeito deste livro de Mario Vieira de Mello: ele não se presta a elucidar a obra de Nietzsche, mas, sobretudo, busca apresentar uma interpretação a seu respeito. Não se trata, portanto, de um livro introdutório; muito ao contrário, é um livro que, logo de cara, engata uma discussão com profundidade a respeito da obra do sempre-citado-mas-pouco-lido autor alemão. Assim, menos do que sobre o conteúdo, minhas reflexões versarão, de maneira mais específica, a respeito da lógica pela qual o autor chega a suas conclusões. E o trabalho, nesse sentido, não é fácil: a escrita de Mello não é linear, de modo que os temas tratados não se sucedem, mas, antes, se acumulam e se repetem, de diferentes formas, ao longo do texto.

O imbricado encadeamento de ideias de Mello tem um objetivo que se revela desde o título: realizar um paralelo entre a vida de Nietzsche e a vida de Sócrates e, com isso, demonstrar de que maneira as obras dos dois filósofos se assemelham.

Essa difícil tentativa de aproximação tem como ponto de partida a árdua tarefa de relacionar a obra e a vida dos dois filósofos e tem como pano de fundo a repetição de uma clássica e insolúvel questão: é possível separar a vida do autor de sua obra? A essa pergunta, Mello responde de maneira interessante: “é porque as filosofias socrático-platônica e nietzschiana constituem projetos de vida, que se pode dizer que nelas a obra influencia a Vida” (p. 70). Note que a resposta fornecida por Mario Vieira de Mello não é generalizável; ele não afirma que obra influencia vida, tampouco que vida influencia obra, mas diz que Sócrates e Nietzsche têm a peculiaridade de fazerem de suas obras projetos de vida. Nisso consiste a principal aproximação entre os dois filósofos, da qual decorrerá toda a reflexão posterior do livro.

Sendo assim, para Mario Vieira de Mello, quando Sócrates aceitou a imposição de pena de morte que lhe foi feita e bebeu a cicuta, ele consumou o seu projeto de vida, fornecendo a Platão os subsídios para a obra que deveria ser posteriormente consolidada. Ora, caso tivesse cedido à proposta de seu amigo Críton e tivesse se evadido da prisão, Sócrates não teria tido razão em se julgar um estadista, tampouco em afirmar a decadência do Estado em que vivia e apresentar as formas de regenerá-lo. Afinal de contas, se o diagnóstico socrático da falência do Estado fosse falso, a sua condenação não teria ocorrido. O destino cumprido por Sócrates foi, portanto, completamente coerente com a sua obra – mais precisamente: foi a execução deliberada dela. 

De maneira semelhante, para Mello, quando Nietzsche proclamou a falência da cultura do seu tempo, se sujeitou ao destino que sua obra lhe impunha: em primeiro lugar, sua morte no mundo acadêmico, com a publicação do explosivo livro A Origem da Tragédia; em segundo lugar, a perda de sua própria consciência, em virtude da tensão espiritual gerada pela negativa em participar dessa mesma cultura decadente.

Assim, em ambos os casos, o destino cumprido teria sido, antes de tudo, a expressão de uma atitude deliberada, destinada a executar um projeto de vida. Especificamente no tocante a esse ponto, a conclusão à qual chega Mario Vieira de Mello é problemática porque deseja fazer convergir os destinos dos dois filósofos que, embora igualmente trágicos, têm natureza completamente distinta: enquanto Sócrates foi condenado pelo incômodo político que provocava, Nietzsche padeceu em virtude de um colapso mental cujas causas ainda são controversas.

A esse respeito, a tese de Mello, conforme se salientou acima, é de que a doença mental de Nietzsche foi “consequência e não causa das ideias que agitavam o espírito do filósofo” (p. 227), de tal modo que a “cicuta de Nietzsche” teria sido representada por sua própria obra, que consistiria na “dose de verdade que seu espírito não poderia suportar” (p. 227). E Mello efetivamente se esforça em comprovar sua tese: analisa os mais relevantes estudos médicos existentes a respeito da relação causal entre a doença de Nietzsche e a sua obra, assim como dedica um capítulo brilhante para explicar o papel central que o problema fisiológico exercia na obra de Sócrates e, mais ainda, na de Nietzsche, de maneira a demonstrar que o fator biológico não poderia estar dissociado do projeto de vida presente nos seus escritos.

No entanto, apesar da riqueza e detalhamento de seus argumentos, Mario Vieira de Mello não me convenceu quanto à sua tentativa de aproximar Sócrates e Nietzsche a partir de suas histórias de vida, claramente díspares. O desejo de conciliar os dois filósofos prediletos de Mello soou, em algum ponto, um pouco forçada.   

Por outro lado, faz sentido a interpretação de Mello a respeito da obra de Nietzsche, vendo nela sinais de uma forte inspiração do próprio Sócrates, a despeito da conhecida ferocidade com que o filósofo alemão se lançou contra o clássico. Contudo, nesse aspecto, a conclusão a que chega Mello não é propriamente inovadora, pois é mais ou menos evidente que só se opõe com veemência contra aquilo o que se julga efetivamente importante e ameaçador. Assim, ao afirmar que a vitalidade da cultura e do homem grego foram afastados com o racionalismo de Sócrates, Nietzsche não poderia deixar de considera-lo como um divisor de águas na história ocidental, apesar de todas as tentativas nietzschiana de ridicularizá-lo.

O paralelismo existente entre vida e obra de Nietzsche, assim como a inspiração socrática atestada na obra de Nietzsche constituem, grosso modo, os eixos centrais do livro de Mello. Quanto a eles, conforme já se disse acima, as conclusões são controversas e não chegam a empolgar. Contudo, a leitura é instigante pelas muitas pérolas dispersas, distribuídas ao longo de partes que, analisadas isoladamente, são combustíveis para muitas reflexões inusitadas. Por exemplo, os capítulos “A Comunicação Indireta, as Interpretações e as Máscaras”, “O Niilismo” e “A Medicina e a Ética” valem por todo o livro. Neles, o arrojo intelectual e estilístico de Mario Vieira de Mello se faz sentir com toda a sua força, de tal modo que, para não incorrer no risco da superficialidade, me abstenho de comentá-los aqui. A sua análise fica por conta de textos posteriores ou – melhor ainda – por conta da curiosidade daqueles que desejarem conhecê-los.

Por fim, fica o registro da coragem de Mario Vieira de Mello, atributo que salta aos olhos em cada uma de suas frases e que está plenamente de acordo com sua defesa de Nietzsche enquanto “filósofo da coragem”. Certamente o mundo acadêmico seria mais interessante se cultivássemos pelo menos um pouco da paixão e determinação com que Mario Vieira de Mello abraça suas ideias. Para mim, fica sobretudo a lição: se não podemos convencer a todos, isso não nos deve impedir de investir todos os nossos esforços na defesa daquilo o que convence a nós mesmos.   

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"Quem se julga superior ao Nietzsche de 1890 porque é capaz de se vestir sozinho, tomar um ônibus e assinar seu ponto na repartição não merece nem mesmo um reparo. E quem é capaz de um pouco mais encontra seu limite na propensão de debicar de um homem cujo único erro foi procurar tirar a humanidade do marasmo em que ia progressivamente afundando." (Mario Vieira de Mello, p. 150).