segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O que aprendi com Walter J.Ciszek


Imagem relacionada

The Lord's my shepherd, I'll not want
He makes me down to lie
In pastures green He leadeth me 
The quiet waters by.
Yea, though I walk through death's valley
Yet will I fear no ill,
For Thou art with me and Thy rod
And staff me comfort still. 

(Salmo 23)

Semana passada, concluí a leitura de He Leadeth Me (ainda sem tradução para o português), escrito pelo padre jesuíta Walter Joseph Ciszek com o auxílio do também jesuíta Daniel Flaherty, em 1973. Esse livro se propõe a ser um relato espiritual da história já contada no livro With God in Russia, em que Ciszek narra os seus vinte e três anos de aprisionamento na Rússia Soviética. Enquanto With God in Russia é uma crônica de sua experiência como prisioneiro, em He Leadeth Me, o jesuíta buscou responder à pergunta lhe endereçada repetidamente após o seu primeiro livro: “como você sobreviveu?”. Em resposta a esse questionamento, Ciszek escreveu o testemunho de fé que encontramos em He Leadeth Me.          

Não tenho qualquer receio em afirmar que esse livro mudou minha forma de encarar os desafios do cotidiano. Sempre fui muito imediatista, e o mestrado tem me exigido pisar no freio: passar tanto tempo dedicada à tarefa de escrever minha dissertação, debruçada sobre um único tema, tem sido um exercício, às vezes, desgastante. Um trabalho não é escrito da noite para o dia e a sensação é de que os avanços são lentos, a ponto de serem imperceptíveis. O estranho sentimento é querer que o tempo corra mais rápido, ao mesmo tempo em que desejo que ele se multiplique. E é precisamente diante dessa necessidade de paciência e resignação que He Leadeth Me teve uma grande importância para mim.


...

Após uma tentativa desastrada de evangelizar clandestinamente na Rússia Soviética, país que era conhecido por sua política antirreligiosa, o padre Walter Ciszek se vê retido, em 1941, pela NKVD – uma espécie de braço repressivo da URSS –, sob a falsa acusação de ser um espião do Vaticano. Após a sua prisão se seguiram cinco anos de aprisionamento solitário em Lubianka, a mais temida instituição de segurança máxima da União Soviética. Já nessa primeira parte do livro, encontramo-nos diante de um drama inimaginável: cinco anos de completa solidão, sem saber o que o aguardava a seguir, submetido a interrogatórios intermináveis cuja finalidade era fazê-lo confessar um crime não cometido. Como alguém pode sobreviver a essa experiência mantendo a sua sanidade mental? Como é possível extrair dessa assombrosa tortura algo de engrandecedor espiritualmente? Ciszek explica como sua fé o sustentou em capítulos que me emocionaram e que me fizeram refletir sobre a minha própria noção de tempo. Cinco anos sem compartilhar um só pensamento com alguém - exceto pelos interrogatórios. Cinco anos sem livros. Cinco anos convivendo apenas com seus próprios pensamentos. E, antes de qualquer coisa, cinco anos de intenso aperfeiçoamento espiritual por meio da oração. Como explicar que alguém consiga sair fortalecido de uma provação como essa? Será que eu tinha sequer direito de considerar meu processo de escrita como uma provação? E se assim o fosse, eu não deveria me esforçar para fazer dele um instrumento de aperfeiçoamento intelectual e pessoal?

Mas a saga do padre jesuíta na Rússia não termina aí. Depois do período em Lubianka, Ciszek é enviado para mais quinze anos de trabalho forçado nos gelados Gulags, na Siberia. Submetido a condições precárias, o relato de Ciszek revela um homem dotado de um vigor espiritual inabalável e dando o melhor de sua força física, não apenas para sobreviver, mas, como ele mesmo afirma, para cumprir com o mais devotado amor as tarefas extenuantes e repetitivas que faziam parte dos planos de Deus para a sua vida. Mais uma vez, questionei-me sobre o meu ofício: eu tinha direito de me queixar do trabalho intelectual que eu mesma havia escolhido e, como presente de Deus, conquistado? Eu não deveria dar o melhor de mim e fazê-lo cheio de alegria, pelo simples fato de que essa tarefa me foi confiada?

E foi assim, capítulo após capítulo, reflexão após reflexão, que a minha ansiedade foi dando lugar a um grande sentimento de paz e conforto. Embora não seja sempre fácil e evidente, comecei a enxergar minha própria experiência presente não como um processo para um estágio melhor - para o qual eu tinha pressa de chegar logo -, mas como o momento perfeito. E esse, aliás, deve ser um exercício constante para todas as pessoas, seja qual for a circunstância desafiadora a que estejam submetidas, quer possuam fé ou não.


...


Eu não teria como resumir He Leadeth Me por inteiro – e não é essa a minha intenção por aqui –, então resolvi sintetizar abaixo as dez lições mais marcantes que extraí desse livro tão simples e, ao mesmo tempo, tão poderoso. Trata-se, sobretudo, de uma tentativa de não as esquecer. Meu desejo sincero é que todas as pessoas, um dia, encontrem uma fonte de aprendizado espiritual como a que encontrei na história de Walter J Ciszek.

1. Você não precisa ter medo do que está por vir: o futuro já é uma dádiva. Você nunca estará sozinho.  

2. Não, sua vida não precisa ser resolvida em uma faixa etária ideal, pelo simples fato de que ela já é perfeita neste exato momento. É comum que as pessoas perguntem qual a vontade de Deus para as suas vidas, mas a grande descoberta é que a vontade de Deus consiste precisamente na vida que se leva hoje. Sendo assim, cada momento deve ser aproveitado ao máximo.
  
3. Nada do que você viveu até hoje foi perda de tempo: tudo aconteceu exatamente como deveria acontecer. Ainda que você só consiga enxergar até a próxima curva da estrada, o caminho que você está percorrendo é o mais bonito, pelo simples fato de que foi traçado especialmente para você.

4. Na busca por seu aprimoramento espiritual, você não deve desprezar o seu corpo. Na maior parte do tempo, cumprir os desígnios de Deus não é uma questão de ter o ânimo para tanto, mas de ter um corpo capaz de se levantar da cama pela manhã, mesmo exausto do dia anterior.

5. As menores e mais repetitivas tarefas cotidianas também são dons de Deus. Lembre-se de que Jesus Cristo viveu 33 anos no plano terrestre e, destes, trabalhou 30 anos como carpinteiro – realizando um trabalho repetitivo, não intelectualizado, produzindo artefatos que seriam utilizados nas atividades mais banais da vida humana. É preciso amar a rotina e as mais insignificantes tarefas cotidianas. Cristo, em seu exemplo, não nos ensinou nada diferente daquilo o que ele próprio viveu.

6. A fé é dom de Deus, mas ela requer de nós esforço pessoal diário. Ela deve ser alimentada dia após dia, através da missa e da oração. Sobre a missa, aliás, é preciso que se diga que não se pode esperar dela as circunstâncias ideais: o importante é estar presente. Seja a Igreja confortável ou não, seja o padre eloquente ou não, a missa tem um valor intrínseco e insubstituível.

7. A melhor forma de evangelização é o exemplo. Viver concretamente aquilo em que se acredita é o modo mais fácil de tocar o coração das outras pessoas. Mas isso não nos exime de comunicar verbalmente a nossa fé.

8. O medo da morte é um instinto natural do ser humano, mas o fundamento da fé cristã está na ressurreição. É esse fato que dá sentido à nossa fé e à Igreja de Cristo e é ele que nos permite encarar a morte apenas como uma passagem que não deve ser temida.

9. Humildade significa compreender que não temos controle total sobre a nossa vida – apenas controlamos nossas reações diante dos eventos indesejados. Fazemos planos, sonhamos com a sua concretização, mas é somente quando as dificuldades aparecem que a nossa humildade é forjada. Sacrifício e frustração também são parte de um projeto de amor traçado por Deus e, vistos dessa forma, os fardos são mais levemente carregados. Nisso consiste a paz de espírito. "What can ultimately trouble the soul that accepts every moment of every day as a gift from the hands of God, and strives always to do his will?" (Walter J. Ciszek) 

10. Não há complexidade alguma na fé. Ela é, de fato, algo muito simples. A fé é entrega. Por isso, ela pode não satisfazer aqueles que exigem grande complexidade para aceitar explicações. Não é possível convencer alguém a ter fé – mas é um erro envergonhar-se dela.   

               


Adquirido pelo Amazon.com





Walter J. Ciszek teve seu processo de canonização iniciado no Vaticano em 1990.